Acabo de voltar do hospital Barra Dor (de novo) e estou apavorada. Só EU sei o que eu passei hoje quando a vovó passou mal. A verdade é que pensei que ela estava morrendo lentamente na minha frente. Falava com ela e ela não respondia. Sacudia ela e nada. Parecia que ela estava indo lentamente para o "céu". Me senti tão sozinha! Liguei desesperada para meus irmãos, gritei, chorei, pedi para eles irem me encontrar, mas mesmo assim o medo não passou. Sophia me perguntou se a avó estava morta. Como lidar com isso? Não tinha como levar ela para o hospital pois não tinha carro. Não tinha como pegar o carro na oficina pois não tinha dinheiro. Não tinha dinheiro porque não me pagam o que me devem. Corri feito uma desesperada para a portaria e pedi socorro aos porteiros para levá-la ao táxi (que não apareceu mesmo uma hora depois). Meu irmão chegou na garagem e nos encontrou sentados à espera da porra do táxi que nunca apareceu. Fizemos um milagre para colocar a vovó, que é super pesada, na Hillux do meu irmão que é super alta. E lá fomos para o Barra Dor. De novo.
Não pude ficar com ela pois ela ficou no CTI. Graças a Deus que tenho a minha irmã ao meu lado, e só Ele sabe como fiquei feliz com a atitude do meu irmão e com a minha cunhada. Foi um dos melhores (e piores) momentos em família que tivemos juntos desde muito tempo. Conversamos, rimos, ficamos em silêncio. Mas ficamos juntos. O Dio largou tudo o que estava fazendo para ficar perto de mim e da vovó.
O médico veio conversar conosco. Ouvimos a sentença: Alzheimer e algo inexplicável, por enquanto, que fazia a minha avó ter quedas de glicemia severas em poucos minutos levando a um provável choque hipoglicêmico e perigando num coma. Silêncio. Nessas horas tudo para, o tempo para, o mundo para. Estamos perdendo a vovó aos poucos para o Alzheimer. Ela está se perdendo aos poucos no Alzheimer. Não reconheceu o meu irmão. Troca tudo e faz bobagens. A grande e foda Dona Hélia agora é uma vítima do Alzheimer e se afunda no que mais poderia abalar o que ela sempre foi: altiva e orgulhosa.
Que ironia!
Agora, aqui em casa, quietinha no meu canto choro baixinho. A minha irmã dorme no sofá que foi dos nossos avós e o Dio assiste o filme da Tinker Bell com as crianças. A minha vida passa na minha frente como um filme. Essa semana fiquei sabendo que estou com problemas no coração. Estou com cisto no ovário. Estou inchando tanto que não consigo andar. MInhas veias estão estourando pelo meu corpo. Meu rosto é um véu de acne como se eu fosse uma púbere. Estou pesando 80kg e meus cabelos caem. E a minha avó está morrendo lentamente junto com seu orgulho, com sua altivez, com sua memória, com sua lucidez. Eu morro por dentro, ela morre por fora. Alma e corpo.
E na minha mente a pergunta que nunca some e que tanto me apavora: quando? quando vai acontecer o pior? Não estou preparada para a resposta e nem para o acontecimento. De tudo o que eu perdi nesses últimos anos - amigos que morreram, amigos que pararam de falar comigo, amigos que não me merecem mais, o dinheiro que emprestei para as pessoas em quem confiava e amava, a PUC, meus avós - nada pode me ferir e me tirar mais da vida do que a minha avó Hélia. A mulher que me criou. A mulher com quem eu passei a vida inteira caindo na porrada, xingando, brigando, conversando, conhecendo, amando.
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