sexta-feira, 1 de abril de 2011
Fardos e pecados
O único som que escuto é o da minha sombra seguindo meus passos e sussurrando os meus pecados. Pé ante pé levo um corrente dourada repleta de badulaques de ouro e pedras preciosas que tornam a caminhada cansativa e que estão ali para me lembrar de tudo o que eu fiz, de tudo o que não poderia mudar nunca mais, do passado que não poderia ser apagado e do preço caro da minha existência após cada pecado cometido.
Sempre lasciva me surpreendo com o prazer que, mesmo acorrentado a dor das correntes, percorre cada átomo do meu corpo como se desejasse lembrar que tudo sempre vale a pena, tudo sempre valeu a pena. Carrego fardos pesados, carrego o peso da culpa, o peso do desprezo, o peso da tristeza, o peso do arrependimento, o peso do julgamento, o peso do remorso. Carrego o medo do peso da vergonha que só existe quando o pecado é maior do que o pecador.
Fecho os olhos e reflito sobre a natureza da minha existência, sobre a natureza selvagem da minha alma. Labaredas, fogueiras, incêndios... Em minhas veias corre o fogo, em meu coração pulsa paixão e inconseqüência, em minha carne o suor da loucura seca antes mesmo de pingar. Carrego em cada marca desse corpo as escolhas que fiz, as encruzilhadas pelas quais passei e o impulso do meu espírito. Carrego em cada marca desse corpo a feiticeira, a cigana, a vadia, a guerreira, a amazona, a matriarca, a rainha, a sacerdotisa, a bruxa, a donzela e a puta.
O espelho não se parte em mil pedaços quando me vê. O espelho me lembra quem eu sou, de onde vim e por que estou aqui. O espelho me lembra do orgulho de tudo o que eu vivi. Ele me mostra como é linda a corrente dourada com badulaques dourados e cada marca do meu corpo.
Minha vida está entalhada com ferro e fogo nas pedras do destino. Sou o que sou, de onde vim eu sei, para onde vou é o melhor mistério de todos.