Os outros não enxergam as entrelinhas da minha vida.
Já não vivo mais. Sigo automaticamente por respeito à filha e ao marido.
Não sou mais nada. Não sou mãe, não sou esposa, não sou mulher, não sou estudante, não sou família... Sou uma alma sem rumo. Sou Nada.
O apartamento, como uma zona de guerra, deixado do jeito que estava no dia da fatídica notícia é recheado de roupas amarrotadas, lixos que transbordam, sofá cheio de bagulhos de idas e voltas à rua, o piso branco coberto de uma negra camada de sujeira e o fogão vazio e sem uso.
Eu, a pessoa, um Nada, como uma indigente, deixada pior do que estava antes da fatídica notícia estou coberta por trapos quaisquer, cabelos despenteados e descuidados, unhas amareladas por fazer, olheiras e espinhas que enfeitam a pele do rosto e um corpo esquecido na cama, se possível para sempre.
A campainha do telefone é silenciosa e o celular permanece desligado (do mundo lá fora). O computador é a única fonte de comunicação e desabafo, um contato só de ida sem a necessidade de volta.
Onde está Deus nisso tudo? Deus? Que Deus? Não sei mais se Ele existe ou onde está. Será que ainda acredito? Qual propósito Divino me fez estar sozinha aos 35 anos? Cadê meu pai, minha mãe, meus avós (todos eles), cadê a minha família? O que é família?
Família é essa dor que arranca de mim tudo o que há de mais puro e bom? Família é esse sentimento de abandono e solidão, de traição e desprezo? É essa madrugada sem fim, essa busca pelo escuro, esse desejo desesperado pela morte? Pois que família eu tenho? É ficar estarrecida perante as mesquinharias de um universo de irmãos e irmãs e primas e primos. Viver numa teia de intrigas e fofocas e manobras de guerras civis e jurídicas.
Chove lá fora e eu adoro o som e a visão da chuva. O asfalto molhado que lembra uma obra de arte e o vento que canta nas árvores. Meu marido e minha filha dormem na minha cama de casal. A dor é tão grande que eu não tenho sido mãe, nem esposa, nem amante, nem zelosa, nada. Eu tenho sido Nada! Um Nada que tenta fugir da realidade e tenta não encarar o presente e o futuro.
Ainda sinto a presença da minha avó em tudo o que faço. Chego em casa e me preocupo em ligar para saber como ela está ou para contar que cheguei bem. Vou às minhas obrigações religiosas e me preocupo em pegar uma fruta para ela. Ela ainda existe na minha vida e eu não existo mais na vida de ninguém. Com quem vou conversar sobre as coisas que conversava com ela? Quem vai cuidar de mim? Quem vai se preocupar comigo e proteger "as minhas costas"? Me sinto sozinha e nada mais faz sentido.
Todos querem o mérito pelo milagre de me recuperar ou de me deixar melhor. Esse mérito não existe e não existirá, pois minha vida nunca mais será a mesma.
Entrei no meu quarto e a cena era a mesma do dia em que eu soube. Foi como se recebesse a notícia de novo.
Não consigo lembrar de nove dias da minha vida. Nove dias em que convivi com pessoas e não lembro. Dizem que xinguei, que berrei, que agredi, que agradeci, que chorei, dizem tantas coisas. Eu não lembro. Lembro de contar a notícia para a minha filha no colégio. Lembro que quebrei tudo que estava ao meu alcance no quarto. Lembro que gritei, urrei, e que pedi que meu marido ligasse para as pessoas, especificamente para o Ranz, a Carmen e para a Glória. Depois não lembro de mais nada.
Entrei em casa. Desde que voltei não toquei em nada. Não limpei, não cozinhei, não fiz nada. Todos os dias eu saio de casa e levo minha filha para comer em algum lugar. Todos os dias eu rezo para conseguir levar e buscar ela no colégio. Nem todos os dias eu consigo. Todos os dias eu deito na minha cama e rezo para não acordar no dia seguinte nem no seguinte nem em dia algum.
O telefone virou um objeto de repulsa. Quero ligar para minha avó como sempre fazia. Quero atender o telefone e ouvir a voz dela perguntando se a Sophia está bem, se o meu marido está mais calmo, se eu fui no médico, se eu estou tomando os remédios... Ninguém me pergunta nada.
Imagino meu marido chegando todo dia em casa e suspirando satisfeito por eu ainda estar viva. Vejo nos seus olhos a decepção de encontrar a casa do mesmo jeito que estava em 13 de março de 2009. Sei que ele não aguenta mais, que ele está de saco cheio. Eu também estaria.
A chuva continua a cair. Fico pensando nas coincidências. Meu pai morreu em 1987, minha mãe em 1997, meus avós paternos em janeiro e fevereiro de 2007 e a minha avó morreu na véspera do meu aniversário e foi enterrada no dia do meu aniversário. Esse foi o meu presente esse ano. E eu devia estar linda no velório (gostaria muito de me lembrar) pois tinha ido ao salão no dia anterior e feito cabelo, unhas, comprado vestido novo...
Não tenho conseguido comer. Dizem que emagreci muito. Eu simplesmente não sinto fome. Mas percebo que algumas coisas voltaram a acontecer. As manias, os rituais, a depressão, o corpo colado na cama eternamente, a mesma roupa, a escuridão.
Ao meu redor muitos conselhos, muitas conversas, muitas mudanças... Todos esperam algo de mim, alguma atitude, alguma cobrança, alguma ação judicial... Eu só espero que não esperem nada de mim. Por que eu sou Nada. E a princípio nada pretendo fazer. Não ajo como Caim e Abel. E prefiro virar a outra face. Mas sei do que estamos falando, não nego.
Já me desanimo e me desespero com o dia de amanhã. Acordar às 6, levar e buscar a Sophia na escola, inventar um almoço fora ou em casa, fazer o dever de casa na cama, ficar vendo televisão na cama, receber o marido quando ele chegar na cama, colocar Sophia para dormir na cama, ver televisão durante a madrugada na cama e dormir na cama.
Sigo. Nada sou, mas sigo. Ainda que eu ache que eles ficariam melhor sem mim.
E Deus continua lá, sei lá onde, jogando com o peão Tatiana e arquitetando essa vida sem sentido. E Tatiana continua vivendo automaticamente essa vida desejando um sentido ou uma saída que faça sentido. E os outros continuam vivendo e agindo como se estivesse tudo como tem que estar.
Nada faz sentido. Mas será que tinha que ter? Não sei. Sou Nada e como Nada nada sei.