sábado, 30 de outubro de 2010
Quando o telefone toca
Esqueci o celular na casa da minha cumadre em São Paulo e me sinto feliz. Não lido muito bem com telefone e ter menos um perto de mim é uma maravilha. Nunca tinha parado para pensar em porque eu tenho tanto problema com telefones até meu amigo sofrer esse acidente de carro horrível e parar na CTI em estado grave. Lembrei de todos os momentos em que o telefone tocou para anunciar a morte de algum ente querido ou de todas as vezes em que fiquei esperando esse momento acontecer. Tantas mortes associadas ao telefone, tantos acidentes. Eu lembro que quando a vovó Ricardina faleceu depois de dias na UTI a situação com o telefone foi até meio peculiar. Não lembro porque naquela noite eu tinha decidido ir dormir na rede na varanda e apesar dos protestos de todo mundo assim o fiz. O telefone tocou no meio da madrugada e eu caí da rede ao ouvir o segundo toque. Quando cheguei no quarto da minha avó Hélia e olhei para o seu rosto eu já sabia do que se tratava. Quando o telefone tocou lá em casa na véspera do meu aniversário e o Dio ficou lívido e começou a gaguejar eu também já sabia do que se tratava. Então, o toque do telefone tem um aspecto fúnebre, de terror, para mim. Quando o telefone toca eu me apavoro e penso nos meus irmãos, na minha sobrinha, no Dio, na minha filha, nos meus melhores amigos. Não consegui desfazer a associação entre o telefone e a morte de alguém que eu amo. Nesse momento em que um dos meus amigos mais queridos está lutando pela vida no CTI a sensação é justamente essa, um terror constante quando o telefone toca, mesmo acreditando que vai dar tudo certo. E quando sei que meu irmão está viajando, e quando a minha irmã não chega na hora que costuma chegar. Eu sei, eu sei que é uma loucura, uma paranóia, mas não consigo agir de forma diferente. Não sei se é por causa dos aspectos psiquiátricos da minha mente ou se é da minha própria personalidade, mas o fato é que eu sou assim. E, cá entre nós, para quem já perdeu praticamente toda a família e ainda uns amigos muito importantes e jovens, até que eu lido bem com o meu dia a dia.
sábado, 23 de outubro de 2010
Oco e vazio
Olhei seus olhos, seu belo rosto, seus cabelos. Tentei observar o resto do seu corpo, sempre ativo, sempre cheiroso e cheio de um vigor sexy que nunca seria para mim. Não consegui ver nada, apenas um vazio, como se aquele corpo estivesse oco. A verdade é que eu senti como se a alma já tivesse ido embora e o corpo ainda estivesse preso e aguardasse a liberdade. O medo de que isso fosse verdade era tão grande que eu não consegui chorar, não consegui derramar uma lágrima sequer. Olhava para o seu companheiro desesperado, inconsolável. Olhava para sua mãe que parecia já saber que não havia muita chance de sobrevivência e para o pai que agia como se tudo fosse uma questão de tempo. Sentia o cheiro de CTI, de enfermeiras e médicos, ouvia os barulhos costumeiros e sentia como se eu mesma estivesse vazia. Vazia de esperança. Não era uma questão de pessimismo, pois acreditar numa melhora acho que todos acreditam. Mas faltava aquela esperança de quem sente, de quem tem alguma intuição de que haverá vida no futuro, e não morte. Voltei para casa praticamente em silêncio e pronta para aquele telefonema que eu já conhecia bem com a notícia derradeira. A única coisa que me fazia acreditar num destino diferente era pensar que não era possível que eu perdesse mais uma pessoa tão importante para mim nessa vida, novamente. Ele estava oco e vazio, eu me sinto oca e vazia.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Feliz aniversário vovó Hélia
Hoje eu acordei com uma sensação estranha de que morreria logo. Escrevi um post sobre isso e depois salvei na caixa de rascunho. Depois percebi que hoje seria aniversário da minha avó Hélia e pensei se uma coisa não estava relacionada com a outra. Minha filha acordou estranha, com forte dor de cabeça, não quis ir à escola. Estamos as duas deitadas na cama abraçadas, ela dormindo e eu escrevendo. Ontem um amigo muito querido e muito importante sofreu um sério acidente de carro e ainda corre risco, eu mal consegui dormir. O mês foi muito intenso, muito cheio de dor, de sacrifício, de tragédias e lágrimas. Outro amigo querido está em NY para fazer a décima cirurgia decorrente do câncer, talvez fique parcialmente cego. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Não consigo dar conta de tudo emocionalmente.
Mas hoje seria aniversário da minha avó Hélia e foi uma das primeiras coisas que eu pensei quando acordei. Como seria o seu bolo, o que eu daria de presente, como as crianças se divertiriam, que comida ela desejaria que eu fizesse ou se iríamos ao restaurante. Como eu ficaria feliz por ver a família toda reunida independente das diferenças, pois a vovó era o pilar da família e o que ela mandava era praticamente uma ordem (rs).
Gostaria muito de ir à praia com meus irmãos e sentar em silêncio por alguns minutos para homenagear a mulher maravilhosa que ela foi, nossa segunda mãe, e a pessoa mais importante na vida da minha filha. Gostaria de sentar com eles, de abraça-los e lembrar das coisas mais irritantes e das mais divertidas a respeito dela. Porque eu a amava mas ela era uma mulher muito difícil também.
Lembrar de Guapi, lembrar da porra do strogonoff de frango dos fins de semana, da implicância com nossos amigos e namorados (pelo menos a maioria deles, exceto os da minha irmã, rsrs). Lembrar que em uma das últimas vezes em que ela esteve internada o que realmente a incomodava era o fato de terem tirado a sua dentadura. Em trinta e poucos anos de vida eu nunca tinha visto a vovó sem dentadura ou a própria dentadura (rs) e para mim foi como se um segredo imenso tivesse sido revelado naquele momento. Eu fiquei responsável por limpar a dentadura para ela.
Os domingos em que nos reuníamos ao redor da mesa para comer a comida que ela pedia que eu cozinhasse e que transformava um simples almoço em horas de harmonia familiar.
A timidez que ela sentia ao pedir que comprássemos uma roupa íntima ou um vestido para ela. A felicidade quando ganhava presentes, mesmo que fossem doces ou fatias de bolo. Os lanches compartilhados com Sophia.
Ela e Sophia deitadas na cama toda noite sem exceção, mal cabendo na cama, porque Sophia só dormia ao lado dela e num travesseiro específico que ela tinha. E ai de quem falasse alguma coisa ou tentasse interferir!
O brilho nos olhos quando recebia a visita da minha irmã e da outra bisneta, Júlia. Ela sentia tanta falta das duas, tanta falta da outra bisnetinha e falava tanto delas.
E os natais? A loucura dos natais onde eu recebia ordens sem parar para fazer compras, para cozinhar isso e aquilo, para encomendar tal e tal prato com a amiga dos quitutes. Dezenas de presentes que cada um de nós três tínhamos que providenciar, pois a surpresa tinha que ser geral. Dezenas de presentes para as crianças, não importando o preço, a dificuldade para adquirir, a distância para conseguir, desde que comprássemos tudo o que havia sido desejado. Para então vê-la sentar na cabeceira da mesa e seus olhos brilharem, e um sorriso cheio de anos de vida, de satisfação e de sabedoria enfeitar seu rosto ao assistir o "papai noel" Diogo distribuir os presentes e as crianças gritarem e correrem pela casa mostrando as novidades.
A avó que me perturbou a vida inteira, que brigou comigo a vida inteira, para se tornar a minha melhor amiga e o meu maior amor. Que me ensinou as lições mais importantes, que cuidou de mim como uma águia cuida do ninho, que fez absolutamente qualquer coisa que fosse possível quando achava que alguém não servia para mim ou alguma coisa, mesmo que eu não concordasse com ela. Que me ensinou a ser uma mulher melhor, uma pessoa melhor, que me mostrou os meus erros e me ensinou a perdoá-los para que eu pudesse passar a acertar. Que mesmo sabendo a "louca" que eu sou me aceitou e tentou me entender. Que salvou a minha vida tantas vezes, junto com o meu irmão.
Essa avó que me conhecia tanto, que me amava tanto, que mesmo tendo sido cuidada por mim na maior parte das suas doenças e dos seus problemas, não me deixou estar ao seu lado no último momento pois sabia que eu enlouqueceria, e assim foi. Pode ser que ela não tenha tido consciência ou escolha, mas é como eu sinto que foi, pois foram os únicos dias em muito tempo de vida que não nos vimos ou ficamos juntas.
Nesse aniversário dessa mulher incrível que foi minha avó eu gostaria de agradecer a Deus por ter sido sua neta, por ter sido sua amiga, por ter sido sua aprendiz, por ter cuidado de seu corpo, de suas doenças, de suas feridas e de sua alma, por ter compartilhado a felicidade da sua vida junto com meus outros amores, meus irmãos, e nossas filhas. Queria agradecer por ter a minha irmã e o meu irmão ao seu lado na hora da sua passagem, pois eles são os Titãs dessa família, e queria agradecer pela força e coragem que eles tiveram para passarem por tudo o que tiveram que passar em um dos piores momentos das suas vidas, pois apesar de ter sido responsável pelo enterro de minha mãe e de minha outra avó e ter abraçado seus corpos sem vida, e passado momentos difíceis, sei que não passei o que eles passaram. E se eu tive um surto psicótico ao receber a notícia, imagina o que não poderia ter acontecido se eu tivesse vivido o que eles viveram?
Nesse dia de celebração do dia em que a minha avó nasceu eu gostaria de celebrar com essas mínimas lembranças perto das tantas que eu tenho. E dar as mãos aos meus irmãos, mesmo que estejamos distantes no momento, e dizer que vocês são a minha vida, os meus amores, e que a vovó ainda vive entre nós nos nossos atos, nos nossos encontros, na nossa tolerância uns com os outros, em suas bisnetas, nos nossos princípios e valores, na nossa espiritualidade, nas nossas lembranças, nos nossos gênios terríveis e no amor que nos une, independente de qualquer coisa.
Parodiando as palavras que ela costumava usar às vezes comigo - pela nossa família, eu faço absolutamente qualquer coisa! Feliz aniversário dona Hélia Castro da Silva, mãe de Telma Maria, sogra de Jorge Luiz, avó de Tatiana, Taís e Diogo e bisavó de Sophia e Júlia.
(ps: chorando para caralho e doida pra abraçar meus irmãos)
gfdvh
Hoje eu acordei estranha com uma sensação de que iria morrer em breve. Não aquelas sensações psicóticas, mas uma espécie de pressentimento estranho como se a ampulheta estivesse no final e, no fundo da minha alma, eu sentisse. Talvez eu nem morra logo, mas meu coração não está se sentindo nem um pouco menos apertado. Tive vontade de ligar para várias pessoas com quem eu gostaria de conversar, me desculpar ou apenas dizer o que sentia. Um ímpeto de resolver todas as questões mal resolvidas que importassem para mim e de tentar deixar tudo esclarecido. Pensei nos meus joguinhos de computador e nos pontos que eu perderia (rs).
sábado, 16 de outubro de 2010
Camisa de força
Em pé eu não fico. A dança do corpo e dos sentidos é impregnada de cores e prismas. Os olhos só vêem o que os olhos querem ver, o coração não sente. O coração não sente. Estico a mão e toco a camisa de força. Corpo preso, mente presa, coração preso, boca presa, olhos presos. Hora do comprimido branco, hora do comprimido azul, hora do comprimido pequenininho, hora do comprimido rosa, o relógio dos comprimidos girando sem parar. A vida passando através da janela. Levanta e deita, levanta e deita, levanta e deita. Tudo parece uma coisa só. Nada de café, nada de almoço, falta de apetite, falta de vontade, falta de desejo. Cama, cama, cama, cama. Hora do banho queira ou não queira. Não sei se é quarta ou sexta feira. Em pé eu não fico. Comida eu não quero. O relógio dos comprimidos não para. Eu e a cama, a cama e eu. Saudade, muita saudade. Camisa de força pra segurar a vontade, a verdade, a sinceridade, o excesso de capacidade. O coração não sente. Da janela imagino como está sendo lá, da janela assisto ao que deixei de assistir.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
No colo dos meus fantasmas
Deito no colo dos meus fantasmas. O cheiro do perfume Leite de Rosas da vovó Hélia me deixa entorpecida e o mundo para de girar. Somente o abraço apertado de minha mãe é capaz de me curar e o sorriso contagiante de meu pai que alcança a minha alma e me enche de paz. Um pouco das piadas sem graça do vovô Lorival, uma pitada da inocência e da doçura da vovó Ricardina e todo aquele amor que só eles poderiam me dar. Não é só deitar no colo dos meus fantasmas. É ouvir os conselhos da vovó Hélia e ouvi-la reclamar das coisas dela. É meditar ao lado do papai e ouvi-lo falar sobre a sabedoria dos grandes mestres. É sentir a grandiosidade da minha mãe e lembrar de onde eu vim, de tudo o que aprendi. E eu deito minha cabeça no travesseiro sabendo que não estou só e me preparo para sonhar, e para deitar no colo dos meus fantasmas.
Os vagalumes do meu céu
Meu pai adorava sentar comigo no portão da casa da vovó Hélia em Guapimirim. É claro que ele tinha momentos especiais com meus irmãos também, mas cada um tinha uma personalidade e esse momento era só meu. Ele sentava ao meu lado e me convidava para observar o céu. Contava histórias das estrelas, me ensinava a magia das estrelas cadentes, me falava de lendas sobre deuses, heróis, amor. Naquele tempo a noite era um véu escuro de verdade, não havia nada que ofuscasse a sua escuridão.
Corto os pulsos ou me protejo?
A evolução, a iluminação espiritual, tudo isso requer uma série de concessões e sacrifícios e coisa e tal, mas depois de muita reflexão eu conclui que existe um limite. Se há estresse em consequência de alguma coisa que tenhamos que mexer na nossa vida então não há mérito no sacrifício e na abnegação. Algumas coisas violentam a nossa paz de espírito de tal maneira que não valem o preço. A nossa dignidade não tem preço! A nossa verdade não tem preço. O respeito por nós mesmos não tem preço. A nossa saúde não tem preço.
Dizer não, às vezes, é uma evolução e nos ilumina espiritualmente.
Tolerar e aceitar certas coisas pelo bem maior é questionável.
A doação e a tolerância podem intoxicar tanto a nossa alma, em alguns casos, que geram doenças e manifestações físicas.
Corto os pulsos ou me protejo? Para quem realmente deseja e é capaz de cortar os pulsos essa é uma reflexão muito importante.
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