A bomba que estava armada finalmente explodiu. Já era hora. Com direito a todo tipo de efeitos colaterais.
A vida vem me dando porrada faz um tempo e batendo direto na minha cara. Dizem que o cúmulo da desonra é apanhar no rosto. É só onde eu tenho apanhado.
Desde janeiro desse ano.
Começou com uma síndrome do pânico e eu não conseguia sair da cama, muito menos do quarto. Banho? Comida? Depilação? Pra que oras?
A síndrome do pânico me impediu de ir à PUC, que sempre foi a minha maior paixão e orgulho, onde eu era uma das melhores alunas de comunicação e tinha uma bolsa de 100% (quase impossível de se conseguir lá). Perdi a PUC, perdi a bolsa, perdi minha maior paixão.
O vazio e a falta e motivação de ficar trancada no quarto geraram manias, rituais, compulsões. Sorvete de chocolate da Nestlé de pote azul com calda de morango e fitas de DVD do seriado "House" toda madrugada. Entre outras coisas.
O irônico é que ninguém que está ao seu redor percebe o que está acontecendo. Estava vivendo tudo aquilo sozinha e só ouvia frases de crítica e indignação pela casa. Todos racionais – "Como é que ela não sai daquela cama o dia inteiro?", "Essa garota não vai mais à faculdade não?", "É só isso que ela faz tá vendo? Fica deitada o dia inteiro na cama vendo televisão!"... e outros comentários do gênero ou piores.
Começou então uma pressão para eu me mudar. Sentia-se no ar. E, finalmente, nos mudamos para um apartamento que não estava pronto, que não tinha infra-instrutora, que não tinha nada.
Outros rituais foram criados, outras obsessões. Chocolate toblerone de 400g, bombons trufados do cacau show, água com excesso de gelo, suco de laranja ao acordar e por aí vai.
24hs conectada na internet, como se fosse uma dimensão paralela e eu fosse um avatar.
Dias sem escovar dentes, sem pentear o cabelo (que começou a cair em chumaços como se eu estivesse fazendo quimioterapia), sem tomar banho, sem cortar a unha, sem trocar de roupa.
Minha avó num gesto de desespero pede para eu me consultar com o Dr. André.
Dr. André. (risos) Psiquiatra que conhecia a minha mãe, que era médica, que cresceu com ela, que fundou junto com ela a clínica que foi um dos maiores amores da vida dela, que me carregou no colo, que me chamava de Tatibitati, que me viu nascer e crescer.
Uma consulta foi marcada pela minha avó com a Nete (secretária da clínica, antiga secretária da minha mãe, que me viu crescer, que brincou comigo e que cuidou de mim tantas vezes quando eu ia com a mamãe).
Chego no dia marcado e – pasmen! – eu não acho a clínica. É como se a minha mente tivesse apagado as lembranças daquela época e daquele lugar. Fiquei parada no lugar onde ficava a clínica da minha infância, no calçadão de campo grande e, no lugar onde ela deveria estar uma obra estava sendo levantada. Pânico. Olho para um lado, para o outro. Não sei o que fazer nem aonde ir. Não sei mais se minhas lembranças existiram, não sei mais de nada. Ligo para a Nete e descubro que a clínica tinha mudado de localização há anos, que eu havia participado da mudança e que eu já havia freqüentado muito a clínica nova com a minha mãe. Continuo não entendendo o que a minha mente estava fazendo comigo e sigo para a clínica.
Não reconheço nada. Só a Nete. Estou nervosa, não sei como vai ser encontrar o André, o "tio" André da minha infância.
André abre a porta e nos olhamos. Ele é frio. Seco e distante. Nada da festa que ele fazia quando me via, nada de Tatibitati. Sequer olha para a minha filha, neta da grande amiga dele. Entramos no seu consultório. Uma consulta normal. Uma relação bem médico-paciente. Nada de lembranças, comentários sobre nossa intimidade. Entrega a receita e me espera em um mês. Saio da sala, saio da clínica, saio do ar. Entro no carro e desabo. Choro convulsivamente. Lembro tanto da minha mãe que dói. Lembro da sala dela, lembro do sorriso, lembro de tanta coisa.
E lá estou eu de volta a um tratamento psiquiátrico para psicose maníaco-depressiva. Pela primeira vez com lítio, tomando cymbalta (que eu já conhecia de outro tratamento com outro médico) e tentando acalmar a minha avó e retomar a minha vida.
Todos pensam que é fácil.
A psicose maníaco-depressiva é invisível. Para muitos é frescura. E só é notada em episódios extremos de euforia ou depressão. Como quando eu tentei me matar. Todos notaram. Depois esqueceram e aquilo ficou no passado, como se tivesse sido um ataque de pelica e não fosse mais acontecer, nunca.
Faz tempo que eu me sinto assim: desconstruída, vazia, perdida. Eu não sei mais quem eu sou (e não é "maneira de falar", eu não sei MESMO). É como se eu tivesse acordado de um coma depois de 20 anos e tudo estivesse diferente e eu não me encaixasse. É como se todos falassem de uma pessoa que eu não reconhecesse e eles estivessem falando de mim. E como é se reconstruir? Como é ter toda a sua vida apagada e ter que viver mesmo assim, sem saber quem é você, como é você, o que fazer, o que é certo e o que é errado? Devo agir para me encaixar nas expectativas dos outros ou nas minhas? Quais são as minhas expectativas?
Puf! Você acorda do "coma". Tem 34 anos, não conseguiu se formar, não tem mais a bolsa na faculdade, perdeu o período na faculdade, engordou 25 kg, olha no espelho e não reconhece o rosto rechonchudo e cheio de acne e espinhas. Não tem emprego, não tem estágio, não tem renda. Tem um marido e uma filha de 7 anos (que precisa e espera muito de você). Não tem força para nada, não tem disposição, não tem tesão, não tem perspectiva de melhora ou de futuro.
Puf! Você acorda do "coma". Seu irmão é um empresário ocupado de sucesso, "casado", que não tem mais tempo para você, que não brinca mais com a sobrinha, que não fica mais em casa, que só chega de madrugada e que você nunca mais vê. Não é mais o irmão que vive em casa, que te dá toda atenção e cuja paixão é a sobrinha e a avó.
Sua irmã mora numa cidade que fica a 4 horas de distância, está divorciada, é uma executiva de sucesso cheia de amigos e de vida social. E é uma das suas melhores amigas. Não é mais aquela irmã distante, seca, com quem você não falava, de quem você tinha tanto rancor, que tinha poucos amigos e que não tinha vida social. Agora ela é linda, luta para ficar mais linda ainda, se cuida e batalha pela felicidade.
Puf! Você acorda do "coma". Não é mais magrinha, não é mais linda, não tem mais amigos, não é a rainha da "night", não sai mais para dançar ou beber ou conversar, não trepa o tempo todo, não tem o telefone tocando toda hora e não é mais "aquela mulher que todo mundo sempre admirou e que você sempre conheceu". Agora você depende de um marido, tem uma filha maravilhosa que pede o tempo todo sua atenção, tem um apartamento para decorar e para cuidar.
Quem sou eu? Pelo amor de Deus, quem sou eu?
Então chega o mês de outubro.
Vovó cai uma, duas, três, várias vezes. Vovó abre a cabeça e fica lelé. Vovó volta ao normal. Vovó tem um ataque no shopping e vai parar no hospital onde fica uma semana comigo. Vovó cai de novo e arrebenta o olho. O reboco e alguns azulejos da parede do prédio no condomínio caem em cima do carro que tínhamos acabado de tirar da agência para decidir se íamos comprar. Eu e Sophia sofremos um acidente com o mesmo carro. O marido fica com pneumonia, uma semana de molho em casa. Pegamos um carro emprestado. Outro acidente de carro. Pronto. Acabou o pavio e o limite. A bomba explode.
Não agüento mais. Não agüento mais. Só consigo repetir isso como um mantra.
Ligo para a minha melhor amiga e desabo. Choro convulsivamente, grito, bato a cabeça na parede, soco o chão. Eu não agüento mais. Eu não agüento mais. E não consigo parar de chorar.
Faço um esforço dantesco para não tirar minha própria vida. Um esforço que tenho que fazer a cada milésimo de segundo, porque a dor que sinto é maior do que a minha força e a minha capacidade de lutar. Alguns ignorantes dizem que é fuga. Só EU sei o que é, só eu sei como eu me sinto e o que está acontecendo dentro de mim. Só eu sei o que é se manter de pé todo dia quando na verdade tudo o que eu queria era me jogar num abismo.
Desde então não consigo parar de chorar e cada vez que eu choro é como se eu esvaziasse um pouco o meu corpo de alguma coisa ruim que me possui.
Eu me dei conta de coisas que me envergonharam tanto.
Não tinha noção de como estava mal, de como estava amarga, de como estava a um passo do colapso.
Tudo em mim e na minha vida é um colapso.
Tento pacientemente me reerguer e me reconstruir. É difícil o papel em branco para o escritor. É difícil o corpo e a alma em branco para alguém que não sabe mais quem é e que tem que se reconstruir. Quem eu sou? Quem eu quero ser?
Todo mundo tem um conselho ou algo para dizer, mas ninguém entende que muita coisa não depende de mim. Existe uma barreira, um nível, que foge ao meu controle, pois a psicose maníaco-depressiva é um problema bioquímico e afeta grande parte de quem eu sou e de quem eu posso ser.
De qualquer maneira a bomba explodiu. Agora só existem dois caminhos: pegar toda a força que eu tenho dentro de mim e fazer alguma coisa ou desistir de vez e bye bye.