Então...
Após uma sessão de "Cartas para Julieta" e uma sessão de "Para sempre" a minha cabeça está a mil por hora. O que um traumatismo craniano pode fazer com a vida, com o destino de alguém? Quanto pode mudar do que deveria ter sido, do que deveria ter acontecido? E, o mais importante: quem eu seria e quem eu me tornei?
Não sei onde estou. Não tive a oportunidade de "recomeçar" pois era uma pré-adolescente, ainda não tinha construído efetivamente uma vida, uma história, mas sei como é não lembrar, não saber, não entender e não ser entendida. Sei como é olhar para uma pessoa que significou muito e não significar nada. Sei como é não ter com quem conversar pois ninguém teria como entender.
Daqui a cerca de um mês terão se passado 25 anos desde o dia em que sofri o traumatismo craniano e eu nunca mais consegui retomar o meu caminho, o mesmo caminho que eu não tenho como saber como teria sido.
Essa é a vida que eu deveria viver, que eu deveria ter vivido? Esse destino realmente me pertence? Mil questionamentos passam na minha cabeça.
O que é ser feliz? O que é ser infeliz? Qual o valor que essas palavras ou esses sentimentos tem de verdade em nossas vidas?
O maior aprendizado que eu tenho tido até hoje na minha vida é a respeito da morte. A morte que ceifa sentimentos, promessas, sonhos, destinos.
Pra mim, desde a primeira morte na minha vida, o importante é viver o presente intensamente e nunca deixar de fazer o que se deseja pois pode não haver o dia seguinte.
Saio do cinema e digo - vamos juntar dinheiro para fazer um curso de idiomas de 3 semanas na Europa ou no Canadá? (eu preciso disso, eu desejo isso, eu quero isso!) e ele responde que só fará isso depois de comprar mais um apartamento ou qualquer outra coisa que garanta o meu futuro e o futuro da minha filha. Tudo bem, eu entendo ele e a visão dele.
Ele enxerga um futuro, anos lá na frente que ele deseja que sejam seguros e sem dificuldades. Ele pensa que tem uma responsabilidade em garantir que nada de mal nos aconteça. Ele acredita que esses anos acontecerão, que eles existirão.
Eu enxergo o agora e penso que posso entrar no carro e um segundo depois acontecer um acidente que tire a minha vida e acabe com todas as possibilidades que eu sonhava e desejava e que nunca aconteceram. Eu não enxergo os anos lá na frente, eu enxergo o fim a qualquer momento e a necessidade quase imperativa de viver e transformar os sonhos e desejos em realidade ou eles podem nunca existir. Eu penso que tenho que viver o máximo possível e compartilhar momentos de sonhos e desejos o tempo todo com as pessoas que eu amo pois posso ficar sem elas ou elas ficarem sem mim a qualquer momento e não teremos vivido nada juntas.
Eu não quero ser como a Claire do filme "Cartas para Julieta" e demorar 50 anos para viver uma linda história ou para ter coragem de dizer alguma coisa importante.
Eu quero viver cada momento imediatamente, dizer imediatamente, sentir imediatamente e, se eu viver todos os anos que todos esperam que eu viva, eu possa dizer que vivi tudo o que eu queria viver. Mas se eu morrer amanhã eu também poderei dizer que vivi tudo o que queria viver pois nunca deixei de realizar os meus sonhos e desejos.
Ele está certo.
Eu estou certa.
Nós não concordamos com a certeza de cada um.
Ele foi muito pobre, já passou muita necessidade e tem medo de não estar seguro hoje ou no futuro.
Eu vi muitas pessoas que amava morrerem sem terem realizado seus sonhos e desejos, sem ter tido a oportunidade de dizer tanta coisa, fazer tanta coisa, viver tanta coisa juntos.
E o dia de hoje, a lição de hoje... virou uma encruzilhada em que seguiremos juntos para o mesmo caminho ou separados em caminhos diferentes.