Agora mesmo... Eu já não sei quem sou. Não sou a mesma de alguns minutos atrás e nem a mesma de ontem ou de antes de ontem. Isso parece ruim para você? Anormal? Essa sou eu. O esquecimento de mim mesma faz parte da minha vida, o esquecimento do mundo e das coisas comuns. A lembrança é muito maior do que a simplicidade do cotidiano e vem de um lugar dentro da minha mente aonde nem eu mesma tenho acesso. É difícil, tenho que admitir, é muito difícil. Olhar nos olhos das pessoas como se estivesse entendendo, como se fizesse sentido. As pessoas não fazem sentido para mim. Só preciso que façam sentido as pessoas do meu coração e o meu coração é elitista, etnocêntrico, rude, desconfiado e coisa pior, pode crer. Mas finjo tão bem que até mesmo as pessoas sem sentido acreditam e pensam que eu me importo. Não tenho tempo para elas, pois perco tempo demais tentando fazer sentido eu mesma e me importando com os escolhidos do meu coração. Mas essas pessoas sem sentido falam. Nossa, como elas falam! E eu meneio a cabeça em concordância, empresto algumas risadas para a minha boca, balanço a cabeça e faço alguns trejeitos simpáticos. E finjo que não estou ali ouvindo, pois quando ouço meu rosto muda, meus olhos ficam nublados e sou tão antipática e tão rude que acabo dizimando o perímetro. Sabe aqueles jogos de encaixar da infância? Formas que têm que encaixar em buracos, tijolinhos que devem encaixar com tijolinhos, lego que tem que encaixar com lego. Talvez Deus não tenha tido infância e eu seja o bloco que não encaixa em nada, em lugar nenhum. Não que eu me importe. Mas as pessoas se importam. O bom de não saber quem eu sou é poder estar sempre tentando descobrir, eternamente atrás do sentido que não faz sentido no agora. Sem contar que é divertido ser o bloco que não encaixa buscando o buraco que falta e encostando em todos os outros blocos em busca do 2 + 2 que é igual a 4. Que algoritmo estranho sou eu?