Mas hoje seria aniversário da minha avó Hélia e foi uma das primeiras coisas que eu pensei quando acordei. Como seria o seu bolo, o que eu daria de presente, como as crianças se divertiriam, que comida ela desejaria que eu fizesse ou se iríamos ao restaurante. Como eu ficaria feliz por ver a família toda reunida independente das diferenças, pois a vovó era o pilar da família e o que ela mandava era praticamente uma ordem (rs).
Gostaria muito de ir à praia com meus irmãos e sentar em silêncio por alguns minutos para homenagear a mulher maravilhosa que ela foi, nossa segunda mãe, e a pessoa mais importante na vida da minha filha. Gostaria de sentar com eles, de abraça-los e lembrar das coisas mais irritantes e das mais divertidas a respeito dela. Porque eu a amava mas ela era uma mulher muito difícil também.
Lembrar de Guapi, lembrar da porra do strogonoff de frango dos fins de semana, da implicância com nossos amigos e namorados (pelo menos a maioria deles, exceto os da minha irmã, rsrs). Lembrar que em uma das últimas vezes em que ela esteve internada o que realmente a incomodava era o fato de terem tirado a sua dentadura. Em trinta e poucos anos de vida eu nunca tinha visto a vovó sem dentadura ou a própria dentadura (rs) e para mim foi como se um segredo imenso tivesse sido revelado naquele momento. Eu fiquei responsável por limpar a dentadura para ela.
Os domingos em que nos reuníamos ao redor da mesa para comer a comida que ela pedia que eu cozinhasse e que transformava um simples almoço em horas de harmonia familiar.
A timidez que ela sentia ao pedir que comprássemos uma roupa íntima ou um vestido para ela. A felicidade quando ganhava presentes, mesmo que fossem doces ou fatias de bolo. Os lanches compartilhados com Sophia.
Ela e Sophia deitadas na cama toda noite sem exceção, mal cabendo na cama, porque Sophia só dormia ao lado dela e num travesseiro específico que ela tinha. E ai de quem falasse alguma coisa ou tentasse interferir!
O brilho nos olhos quando recebia a visita da minha irmã e da outra bisneta, Júlia. Ela sentia tanta falta das duas, tanta falta da outra bisnetinha e falava tanto delas.
E os natais? A loucura dos natais onde eu recebia ordens sem parar para fazer compras, para cozinhar isso e aquilo, para encomendar tal e tal prato com a amiga dos quitutes. Dezenas de presentes que cada um de nós três tínhamos que providenciar, pois a surpresa tinha que ser geral. Dezenas de presentes para as crianças, não importando o preço, a dificuldade para adquirir, a distância para conseguir, desde que comprássemos tudo o que havia sido desejado. Para então vê-la sentar na cabeceira da mesa e seus olhos brilharem, e um sorriso cheio de anos de vida, de satisfação e de sabedoria enfeitar seu rosto ao assistir o "papai noel" Diogo distribuir os presentes e as crianças gritarem e correrem pela casa mostrando as novidades.
A avó que me perturbou a vida inteira, que brigou comigo a vida inteira, para se tornar a minha melhor amiga e o meu maior amor. Que me ensinou as lições mais importantes, que cuidou de mim como uma águia cuida do ninho, que fez absolutamente qualquer coisa que fosse possível quando achava que alguém não servia para mim ou alguma coisa, mesmo que eu não concordasse com ela. Que me ensinou a ser uma mulher melhor, uma pessoa melhor, que me mostrou os meus erros e me ensinou a perdoá-los para que eu pudesse passar a acertar. Que mesmo sabendo a "louca" que eu sou me aceitou e tentou me entender. Que salvou a minha vida tantas vezes, junto com o meu irmão.
Essa avó que me conhecia tanto, que me amava tanto, que mesmo tendo sido cuidada por mim na maior parte das suas doenças e dos seus problemas, não me deixou estar ao seu lado no último momento pois sabia que eu enlouqueceria, e assim foi. Pode ser que ela não tenha tido consciência ou escolha, mas é como eu sinto que foi, pois foram os únicos dias em muito tempo de vida que não nos vimos ou ficamos juntas.
Nesse aniversário dessa mulher incrível que foi minha avó eu gostaria de agradecer a Deus por ter sido sua neta, por ter sido sua amiga, por ter sido sua aprendiz, por ter cuidado de seu corpo, de suas doenças, de suas feridas e de sua alma, por ter compartilhado a felicidade da sua vida junto com meus outros amores, meus irmãos, e nossas filhas. Queria agradecer por ter a minha irmã e o meu irmão ao seu lado na hora da sua passagem, pois eles são os Titãs dessa família, e queria agradecer pela força e coragem que eles tiveram para passarem por tudo o que tiveram que passar em um dos piores momentos das suas vidas, pois apesar de ter sido responsável pelo enterro de minha mãe e de minha outra avó e ter abraçado seus corpos sem vida, e passado momentos difíceis, sei que não passei o que eles passaram. E se eu tive um surto psicótico ao receber a notícia, imagina o que não poderia ter acontecido se eu tivesse vivido o que eles viveram?
Nesse dia de celebração do dia em que a minha avó nasceu eu gostaria de celebrar com essas mínimas lembranças perto das tantas que eu tenho. E dar as mãos aos meus irmãos, mesmo que estejamos distantes no momento, e dizer que vocês são a minha vida, os meus amores, e que a vovó ainda vive entre nós nos nossos atos, nos nossos encontros, na nossa tolerância uns com os outros, em suas bisnetas, nos nossos princípios e valores, na nossa espiritualidade, nas nossas lembranças, nos nossos gênios terríveis e no amor que nos une, independente de qualquer coisa.
Parodiando as palavras que ela costumava usar às vezes comigo - pela nossa família, eu faço absolutamente qualquer coisa! Feliz aniversário dona Hélia Castro da Silva, mãe de Telma Maria, sogra de Jorge Luiz, avó de Tatiana, Taís e Diogo e bisavó de Sophia e Júlia.
(ps: chorando para caralho e doida pra abraçar meus irmãos)
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