sábado, 23 de outubro de 2010

Oco e vazio

Olhei seus olhos, seu belo rosto, seus cabelos. Tentei observar o resto do seu corpo, sempre ativo, sempre cheiroso e cheio de um vigor sexy que nunca seria para mim. Não consegui ver nada, apenas um vazio, como se aquele corpo estivesse oco. A verdade é que eu senti como se a alma já tivesse ido embora e o corpo ainda estivesse preso e aguardasse a liberdade. O medo de que isso fosse verdade era tão grande que eu não consegui chorar, não consegui derramar uma lágrima sequer. Olhava para o seu companheiro desesperado, inconsolável. Olhava para sua mãe que parecia já saber que não havia muita chance de sobrevivência e para o pai que agia como se tudo fosse uma questão de tempo. Sentia o cheiro de CTI, de enfermeiras e médicos, ouvia os barulhos costumeiros e sentia como se eu mesma estivesse vazia. Vazia de esperança. Não era uma questão de pessimismo, pois acreditar numa melhora acho que todos acreditam. Mas faltava aquela esperança de quem sente, de quem tem alguma intuição de que haverá vida no futuro, e não morte. Voltei para casa praticamente em silêncio e pronta para aquele telefonema que eu já conhecia bem com a notícia derradeira. A única coisa que me fazia acreditar num destino diferente era pensar que não era possível que eu perdesse mais uma pessoa tão importante para mim nessa vida, novamente. Ele estava oco e vazio, eu me sinto oca e vazia. 

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