quarta-feira, 1 de abril de 2009

Gelo

No momento sou gelo.

Não sinto o meu coração bater. Ele estala, suspenso, congelado.

Não existe sol, nem luar. Existe apenas as chicotadas do vento.

Não sou gelo simplesmente, sou frígida, sou rígida e anárquica.

Vivo nesse iglu desarranjado com tralhas para todo lado.

Sinto que viro um iceberg a qualquer instante, sem desejar doravante.

Sou mais um saco de gelo para um isopor qualquer.

O coração estala, pois tudo que pulsa luta pra viver. Não quero viver.

Insistem em meus ouvidos o tanto que ainda há para eu ver.

Pensei que a pequenina me salvaria, mas só aumenta o meu desespero.

E estala cada vez mais o gelo.

Escultura de gelo. Posando como viva para o teatro da vida, mas estou fria, morta.

Olhos me buscam através de icicles em cavernas onde me escondo.

Mas só existe esse amaranhado triturado de gelo e lágrimas e vazio.

Tanta dor congelou esse rio. Meu sorriso ficou frio.

As velas do parabéns apagadas pela súbita nevasca. Despenco.

Tudo, tudo eu suportaria, mas isso eu não aguento. Congelo.

E o mundo vira um gelo. E estala quando a pequenina sorri. Mas é gelo.

Eu sou gelo. Icicle pendurado na caverna que se tornou minha existência.

Essa existência do por enquanto, do enquanto dure. E dura.

Eu, fria, gelada, icicle, iceberg, envolta na armadura. E sempre gelo.

Porque a vida é tão crua.

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