Nos meus olhos vejo claramente o medo de envelhecer. Não são meus ouvidos que ouvem o som dos novos tempos, ou minha boca que beija diferente e fala coisas maduras, nem a pele que prova a física indiscutível da gravidade quando despeja meus seios, meu abdomen ou minhas nádegas. Mas nos meus olhos, sempre admirados, maior símbolo do meu poder e beleza, orgãos representantes de toda a sedução que a vida proporcionou aos que os olharam... Nos meus olhos cada ruga, cada milímetro de pele caída, cada cor opaca dos tempos que passam, nos meus olhos o passar dos anos toma outra dimensão. Porque talvez eu tenha, ingenuamente, acreditado que os meus olhos manteriam o frescor e a mágica da minha jovialidade e da minha aura feminina. Ou talvez eles pudessem guardar num eterno "lifting" tudo o que viram e transmitiram nos anos em que eu vivi. E de repente eu percebi que na morte não é a rigidez do corpo ou a sensação gélida do toque da pele de quem se foi que provocam a sensação definitiva e indiscutível do fim, mas a ausência do brilho nos olhos, certamente cerrados, que indicam que nenhuma alma habita aquele ser que partiu. Sim, os meus olhos. Olhos cor de mel e refletores de sorrisos e beijos marotos, olhos puxados, cílios longos e a profundidade dos poetas e sensíveis criaturas que habitam a Terra para trazer luz, cores e fantasia aos outros. Olhos que cerram em máscaras de maquiagem negras que pretendem transmitir um convite ou o mistério pessoal. Olhos que sorriem junto com os lábios e olhos que choram junto com o coração. Olhos que pulsam cada sensação, cada emoção até cerrarem as pulsações que mantem a vida acesa. E hoje ao observar meus olhos no espelho e passar o creme que promete a imortalidade do seu brilho eu percebo que não temo envelhecer na flacidez do meu corpo, mas me apavoro ante a possibilidade de perder o brilho (não) eterno dos meus olhos. Marca registrada da minha vida.
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