
Hoje chorei com medo de não lembrar a voz da minha avó. Medo de não lembrar o tom, o ligeiro sotaque, a insistência constante em saber se a Sophia estava bem, se estava agasalhada, se tinha se alimentado direito e coisa do gênero. Em minha mente eu ouvia sua voz como se estivéssemos falando ao telefone. E chorava porque não poderia falar com ela, e chorava de culpa pois todos insistiam que eu estava atrapalhando a sua evolução espiritual, e chorava porque Sophia me abraçava e secava meus olhos com sua toalha de banho e se preocupava com a maquiagem borrada do meu rímel. A voz de minha avó não sai da minha cabeça e me dá tantos conselhos e diz tantas coisas e ainda vejo seus pezinhos com dedos deformados pela artrose balançando enquanto ela está sentada na cama vendo a Sophia brincar. E passa a mão pelos cabelos preocupada com sua aparência. E fala das colegas do clube do sorriso que ligam para saber dela e que sofrem com a perda dos entes queridos. Hoje chorei de solidão porque no final das contas a minha avó se tornou a minha melhor amiga, a minha confidente, a minha conselheira, a minha razão de viver. E agora às 02:15 da manhã choro porque sei que ela já se foi e não sei muito bem o que fazer a respeito. E choro porque continuo ouvindo das pessoas próximas que eu não posso chorar, mas eu TENHO que chorar, eu PRECISO chorar ou eu explodo de tristeza, de raiva, de solidão, de incompreensão, de vazio, de desespero. Não suporto mais o telefone - que se tornou o anunciante das más notícias e das mortes aguardadas e inesperadas. Não suporto mais o mundo porque ele se tornou um baú gigantesco de lembranças de todos os momentos vividos com ela e com todos que se foram. Nunca mais fui na Barra da Tijuca pois é insuportável estar numa dimensão tridimensional que me parece inexata já que me coloca numa linha atemporal invisível onde tudo ainda está aonde deve estar, mesmo que ela não esteja mais lá. Choro porque não existem mais gavetas cheias de bagulhos da Sophia no criado-mudo da vovó e nem moedas para os picolés e as besteiras que ela gostava de dar para a Sophia. Choro porque não consigo conceber a existência da Sophia sem a minha avó e isso é cruel, estúpido e egoísta, mas para mim elas sempre foram uma só, metades uma da outra. E a vida é insuportavelmente cruel com os que ficam e seus fantasmas concretos. A máquina de lavar dada de presente para o apartamento novo, a colcha tricotada para a Sophia, lençóis e agasalhos que nunca usei mas que foram dados em datas especiais por ela, a ausência do último presente de aniversário, do último beijo e do último pedaço de bolo que já estava marcado. Choro porque é indescritível enterrar a avó no dia do aniversário como se fosse um presente macabro ou uma homenagem mórbida. Choro porque tudo me lembra ela e porque parte dela sou eu e parte de mim era ela. E ela se foi. E eu fiquei. E Sophia ficou. E a Barra da Tijuca ficou. E a camisola cor de rosa que foi mandada por engano para a minha casa. E porque a última coisa que ela fez na minha frente foi um cheque de R$ 200,00 para a minha filha para ela comprar lanchinhos e coisinhas que quisesse. E porque amanhã eu acordarei novamente sem ela e com o telefone na mão, como em todas as manhãs desde que ela se foi como se algum milagre fosse acontecer e ela fosse atender. E essa merda dessa dor que não tem tamanho, não tem cor, não tem cheiro, tem um peso insuportável, arde, queima, dói, estraçalha, corta, fere... essa dor vai continuar até sei lá quando e eu vou ter que vive-la e aguentar cada fisgada ou quebrar o pacto da vida novamente e egoisticamente partir, não para encontrar todo esse amor novamente, mas para me livrar dessa dor que me impede de viver, de pensar e de existir. O que pode ser mais egoísta de minha parte? Permanecer vivendo automaticamente sem ser a mãe, a companheira, a irmã, a amiga e o ser humano que as pessoas merecem ou cessar de viver para libertar todas essas pessoas do fardo que é me ver morrer aos poucos de dor e de saudade chorando pelos cantos e não existindo plenamente como todos precisam que eu exista? Choro porque sei que não vou encontrar a minha avó tão cedo se é que um dia a encontrarei novamente e choro porque não sei o que é pior: a sua ausência ou a dor que permanece me torturando desde a sua partida.
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