segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Vinicius de Moraes

Minha cumadre comprou o dvd "Vinicius de Moraes" e decidimos que era algo para ser assistido com pompas e circunstâncias, com vinho, queijo brie e camembert, com direito a lágrimas, lembranças da nossa adolescência, dos nossos pais falecidos, de toda a história da nossa vida permeada pelas músicas e sonetos de Vinicius. O momento era de muita emoção. Esperamos nossas filhas dormirem (juntas elas ficam acordadas até pelo menos uma da manhã), esperamos o silêncio da madrugada cobrir o ambiente da sala, esperamos nossos corações baterem descompassadamente. Pegamos a garrafa de vinho, o queijo e começamos a noite pateticamente erradas (muitos risos). O vinho era bem doce, artesanal, daqueles comprados em lojas que fabricam o seu próprio vinho e foi colocado no chão entre os dois sofás da sala dela, que na verdade não ficam muito perto um do outro. Ela sugeriu as taças de cristal que herdou dos pais tamanha era a importância do momento, mas eu preferi as taças normais, pois conheço meu poder de destruição e sei o quanto sou desastrada. Pegamos o queijo brie caríssimo e... o colocamos em cima da própria latinha no chão entre os sofás. Para comê-lo pegamos os garfinhos pequeninos das nossas filhas e uma faca de serrinha (risos). Ao abri-lo a primeira impressão da minha cumadre foi bem engraçada, pois ela achou o queijo bem feio e fedido (muitos risos). Nossa sessão de memórias da adolescência começou quando minha cumadre lembrou das reuniões que minha mãe promovia lá em casa para os amigos da vida, cheios de bohemia, bossa nova, violões e histórias de uma época que, de alguma maneira, indiretamente, também pertencia a nós duas. Nessas reuniões minha mãe costumava colocar queijo brie e outros quitutes na mesa e nós vivemos muitos momentos como esses juntas.

A cena era realmente bizarra e patética. Duas amigas de longa data deitadas nos sofás da sala com uma garrafa sem rótulo de vinho, duas taças de vidro, um queijo super chique servido no chão em cima do próprio recipiente, dois garfinhos de criança e o dvd sagrado de Vinicius de Moraes.

Começamos a assistir o filme. Cada minuto era repleto de emoção, lembranças, lágrimas, suspiros... A garrafa de vinho esvaziando rápido, o queijo acabando... De repente, num dos momentos mais emocionantes do filme minha filha aparece silenciosamente na sala. Tomamos um grande susto ambas. Ela começou a chorar e deitou no sofá em cima de mim para logo depois "apagar" novamente. Decidi não afetar o momento com essa interrupção e continuamos assistindo o filme. O ponto mais alto foi a música "eu sei que vou te amar" cantada por Adriana Calcanhoto onde o passado, o presente e o futuro se uniram e um oceano de lembranças, emoções e momentos se tornaram todo o sentido de quem nós fomos e somos, e ainda pretendemos ser. Terminado o filme, o vinho e o queijo restou o silêncio e a emoção engolida por nós duas e o fim de uma viagem no tempo. Para mim uma grande revelação e a resposta para uma das questões mais importantes da minha vida, e a certeza de que (não me comparando a esse Deus poeta que era Vinicius) eu percebi claramente quem eu sou, ou deixei de ser e preciso ser novamente, na vida de Vinicius. Eu e ele, poetas, loucos, eternamente apaixonados e enamorados, deliciosamente envolvidos com os amigos e com o copinho de uísque ou qualquer bebida que aqueça a alma e libere completamente os sentidos. Eu e ele, constantemente tristes e frustrados, sempre querendo mais, sempre querendo nos apaixonar por algo ou por alguém, perigosamente generosos e desprendidos materialmente e definitivamente únicos (sem vaidade alguma). Vinicius, através de seu documentário, de seus sonetos e músicas me respondeu a maior das questões e me fez enxergar o que eu não conseguia ver: quem eu sou e o sentido da minha vida.

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