De onde estou eu vejo a vida passar. O tempo crava suas garras sobre mim e não há como fugir. Não posso me entregar, apenas tento encontrar uma maneira de viver com isso da melhor maneira possível. Não tenho medo do tempo, tenho medo da limitação que o tempo pode impor. De onde estou vejo a tristeza. O fardo de tanta dor e tanta perda pesa sobre minhas costas. Não posso cair, não vou cair. Tenho que respirar, suportar e levantar. Quem eu perdi não volta mais, o que sofri ficou para trás. Preciso me livrar desse fardo, desse peso que me corta as pernas, os braços, que me corta o coração e me impede de viver tudo o que é leve e que é bom. Eu quero amar, quero voar, quero levemente ser.
De onde estou eu vejo a culpa punir. O remorso, a mágoa, a autocrítica, e toda miserável sensação que acompanha a culpa me empurram contra a parede e pisam sobre mim. Abaixo a cabeça, choro, uivo. Não importa o que tenha acontecido a culpa é minha. Não importa quem sofra fui eu que causei o sofrimento. Sinto como se fosse a causa de todo o sofrimento do mundo e isso bloqueia meus passos. Quem mais sofre sou eu. A auto-punição me flagela e me mutila. Meu corpo é um palco de auto-flagelação. Preciso me apresentar em outros palcos. Chega de tanta dor.
Eu fujo.
Eu corto o cabelo que está caindo em tufos e tufos, eu faço as unhas que quebram à toa e que mostram como eu me trato, eu faço as sobrancelhas que pareciam cortinas sobre os meus olhos, eu me depilo, eu mudo a dieta, eu corro, eu arrumo a casa, faço faxina, organizo, eu limpo, eu tento...
Eu vejo o tempo. Me engolindo, me pressionando, me mostrando, me questionando.
Aborto espontâneo, cabelos caindo, unhas quebrando, ar faltando...
O corpo fala.
De onde estou eu vejo o corpo falando.
De onde estou eu me vejo e me pergunto: viver ou morrer? escolha simples e objetiva.
De onde estou eu vejo o futuro e o futuro é bom.
Nenhum comentário:
Postar um comentário