Tenho tanto e sinto que tudo o que tenho não é meu. Mas é.
Para cada momento há um pouco de humilhação e para cada humilhação uma crescente desilusão.
Perco a fé nos homens, perco a fé nos Deuses, perco a fé em mim.
Pior ainda, perco a fé no amor.
Eu que já não sinto vontade de mais nada, já não sinto.
Será que em mim ainda corre sangue nas veias? Pelo que bate o meu coração?
Essa indiferença come minha alma como um câncer e aos poucos me leva a um estágio terminal.
Nesse segundo sinto ódio pelos que estão pensando na dramaticidade do que escrevo e pelos que se entediam com o meu desabafo e as minhas reclamações.
Não há escape para o que sinto e nem forma segura de me aliviar.
Olho ao redor e vejo o que todos desejam, mas a riqueza que a vida no dá nem sempre é a riqueza que a alma pede. Não necessito de coisas materiais, mas de alimento espiritual e paz para um espírito perturbado.
Desejo abandonar tudo. Abandonar o corpo, a vida, a alma, o peso, a bunda, a mediocridade da minha vida e a essa sensação desconfortável de falta de perspectiva para o futuro.
Abandonar como uma louca. Louca eu seria de qualquer jeito.
Para os que ficam louca eu seria de qualquer jeito, ou desistindo de viver pela morte ou desistindo de viver pela vida, por uma nova vida.
Quando sentimos que já perdemos tudo, não há mais nada a perder independente da nossa escolha.
Na geladeira o almoço está pronto. A casa está quase que impecavelmente arrumada e organizada. O chão eu lavei e esfreguei de joelhos. As fotos foram organizadas por álbum, datas e motivos. As roupas lavadas e perfumadas estão organizadas no armário. Os livros foram colocados na estante, todos. Descongelei a geladeira e limpei a máquina de lavar. A única coisa que existe desarrumada e por fazer é a sala.
Dentro de mim não há nada pronto. O corpo está debilitado e acabado. Carrego cerca de 30 kilos além do que deveria. Mãos e pés estão inchados e o cabelo cai e é frágil como o de uma senhora de idade avançada. Minha pele é ressecada e minhas mãos cheias de calos e feridas. Não faço as unhas desde o dia 9 de março. Não tenho mais plano de saúde. Na boca tenho um canal para fazer e não vou à dentista desde fevereiro. Tudo está desarrumado e por fazer em mim.
Cansei dos jogos da vida. Cansei da futilidade e irresponsabilidade das pessoas que falam e fofocam e intrigam sem pensar nas consequências dos seus atos. Sinto nojo dos seres humanos e da falta de amor pelo próximo. Hipócritas! Egoístas! Mentirosos.
Cansei de mim, ser humano. Erva daninha entre tantas outras espalhadas por aí. Não sou santa, mas não consigo ser como uns outros que conheço.
Eu suportaria tudo em mim menos essa amargura esculpida dia-a-dia e esse vazio que toma o meu peito.
Como um cronômetro, como um relógio, minha mente me tortura no tic-tac das lembranças e das saudades, e da dificuldade de lidar com o que não tem volta.
A morte não tem volta. As decisões tomadas não têm volta. O dinheiro usado e emprestado não tem volta. A juventude, preciosa dádiva que poderia nos acompanhar até a morte apesar da idade, também não tem volta. Os erros não têm volta.
Ou largo tudo e vou para o meio do mato viver como um eremita, ou tiro a vida num golpe certeiro para finalizar essa história. De certo modo eu não tive como controlar grande parte das coisas que aconteceram comigo, mas tenho como decidir como vai ser o fim a partir de agora. Um fim escolhido por mim e não enfiado goela abaixo pelo destino ou por um karma que eu nem tenho conhecimento.
Meus Deuses continuam lá, mas Eles não podem tomar certas decisões por mim.
Quem continua apanhando da vida sabendo como deixar de apanhar é otário. Não quero ser otária! Me recuso a aceitar, ou melhor, continuar aceitando esse papel.
Daqui pra frente eu controlo o peão. Conquisto o outro o Rei e dou xeque-mate ou caio no meu tabuleiro de uma vez.
OU NÃO!
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