quarta-feira, 6 de maio de 2009

Só por esse dia...

Desde cedo eu estava com vontade de escrever, mas resolvi fazer uma faxina em casa tão grande que não consegui sentar no computador até praticamente agora.  Eu queria escrever sobre coisas que estão me incomodando, sobre coisas que me magoaram, sobre o medo de ver uma pessoa que eu amo muito morrer, mas com todas essas fotos na minha frente sobra pouca coisa ruim para digitar. Da minha família só restaram eu e meus irmãos, minha filha e sobrinha, duas primas com seus filhos. Claro que tem mais gente só que são pessoas que eu nem conheço ou que nunca conviveram comigo. Meu pai era filho único e minha mãe também. È inacreditável as coisas pelas quais passamos na nossa vida e vendo essas fotos não existe passado, presente ou futuro. Não existe esse tempo pois eu estou presente em todos eles através de fotos ou os vivenciando. Minha filha fez 8 anos. Eu lembrei de quando fiz 8 anos. É incrível a sensação. Hoje eu tenho a idade que meus pais tinham quando compraram através do antigo BNH seu imóvel próprio num local deserto em que ninguém acreditava e que hoje explode num local chamado - Barra da Tijuca.  Vejo fotos de minha avó em que ela está tão linda que não consigo respirar e entendo o alvoroço que ela causou no passado e as confusões em que se meteu - eu tive a quem puxar! Saudades da casa dela em Guapimirim e do rio que era mais nossa casa do que a própria casa em si. Saudades dos amigos que eram filhos dos grandes amigos que eles tiveram. Risos ao ver fotos do meu atual psiquiatra com visual hippie. Muito carinho com as fotos dos amigos de SP, do Ranz (antigo Ronaldo), da galera do barramares, e de tanta gente incrível que passou pela minha vida. Reflito sobre um email que recebi de uma amiga super hiper especial que sempre manda uns emails que são assim uma porrada no peito de tão lindos, fortes, profundos, emocionais...  Não sei como é encontrar o amor da minha vida no sentido homem-mulher do conceito, mas sei que encontrei o amor da minha vida quando olhei minha filha pela primeira vez, quando olhava para os meus pais e meus avós e quando encontrei o meu Santo no candomblé. O amor é tão sublime, tão divino que não pode ser vivenciado entre homem-mulher. Essa é minha opinião. Amor é incondicional, não tem humores e fases, não tem cobranças egoístas e mesquinhas e não espera nada em troca. Exatamente como quando amamos nossos filhos e pais, ou nossos Santos e entidades (independente da religião). O que eu sofro não tem nome. Essa porra dessa doença que ninguém entende ou leva a sério consome muito do que eu sou essencialmente. Sobra tão pouco. Não é um sofrimento da alma é um sofrimento bioquímico que só pode ser controlado com medicamentos. O sofrimento da alma a gente trabalha meditando, ouvindo música, vendo o sol se pôr, curtindo a chuva ou chorando no colo de alguém que amamos. O sofrimento bioquímico é latente e permanente e vai consumindo nossa sanidade, nossa paciência, nossa capacidade de lutar e de amar. Eu não me entrego. Já me entreguei uma vez e na verdade nem sei explicar o porquê, afinal foi tão impulsivo e impensado e indiferente. O sofrimento da alma eu sinto como poeta, artista, escritora, e transformo em beleza. O sofrimento bioquímico me afunda na cama, me deixa sem tomar banho ou sem me cuidar, me afasta dos que amo e me incapacita. Quando estou sofrendo por causa da doença eu me torno inválida. Quando eu sofro por causa da alma eu me torno produtiva e emotiva. Existiram pessoas que foram muito importantes na minha vida a ponto de eu dizer que estava amando, mas percebi que isso é uma ilusão criada pelo próprio homem, assim como a doutrina da religião. Acreditamos no amor, na redenção, no milagre, como se isso fosse salvar as nossas vidas, como se elas precisassem ser salvas. E esquecemos de acreditar em nós mesmos, no sol, na lua, no rio, na cachoeira, na floresta, no  mar, no céu, no abraço, no violão, na bossa nova, no banho demorado de chuveiro, no cheiro das flores, no cheiro do perfume, no aconchego da nossa cama e do nosso travesseiro, no balançar da rede na varanda vendo as estrelas... esquecemos de acreditar no que é possível e no que é tangível. Nós, seres-humanos irracionais, criamos todos os sofrimentos e medos e paranóias possíveis para evitar sermos felizes ou para tornar isso mais difícil, quase impossível. Por causa da minha doença é difícil viver tanta coisa. A média de melhora com o tratamento - isso quando se acerta no tratamento - é de 10 anos. Tem noção? Estamos falando que durante 10 anos eu vou sofrer altos e baixos, crises e melhoras, tendências suicidas, mania de perseguição, sumir com o meu dinheiro para o bem ou para o mal, sofrer e fazer os outros sofrerem e muitas coisas mais. Vou ser a mãe que num dia está sorrindo, rola no chão, faz cócegas, canta e conta histórias e no outro dia grita, vira a cara e faz de tudo para ignorar aquela pessoinha que pede minha atenção. É uma vida de cão. Como será que eu vou acordar amanhã? Da vida em si eu dou conta. Da vida que a doença cria eu não dou. Hoje, nesse momento, eu estou magoada com um monte de gente, estou com medo que uma pessoa querida (com quem eu deixei de falar faz algum tempo e com quem eu briguei) que eu amo muito morra, estou desconfiada de todos, estou insatisfeita com meu casamento, estou desesperada por não estar trabalhando ou estudando. Hoje eu ouço as pessoas que dizem que me amam apontarem o dedo na minha cara e dizerem um monte de coisas e me acusarem e me destratar. A vida inteira eu aceitei tudo calada e quando eu resolvi gritar todo mundo se mordeu e eu deixei de ser a queridinha e passei a ser a cretina. E se eu toco na questão da doença todo mundo diz que não entende (e não quer entender) e que é cena e que é palhaçada minha. Mas só quem tem transtorno bipolar sabe o que é. Sabe aquela história dos N.A. e A.A. de viver um dia após o outro e a afirmação "só por esse dia eu não vou fazer isso ou aquilo" e no final do dia agradecer por ter superado mais um dia? Pois então. Só por esse dia eu não vou gritar com as pessoas que amo, só por esse dia eu não vou beber, só por esse dia eu não vou ficar deitada na cama o dia inteiro, só por esse dia eu vou me levantar e tomar banho e escovar os dentes e pentear o cabelo, só por esse dia eu vou trocar de roupa, só por esse dia eu vou comer, só por esse dia eu vou ignorar a minha falta de libido e vou fazer amor com meu companheiro, só por esse dia eu não vou gastar todo o meu dinheiro ou comprar coisas compulsivamente, só por esse dia eu vou dormir cedo e acordar cedo, só por esse dia... Nesse dia eu agradeço por ter acordado cedo, levado minha filha no colégio, feito almoço com dedicação e carinho para os que amo, limpado a casa que não era limpa há meses, ter almoçado direito e tomado todos os meus remédios, penteado o cabelo quando saí, ter trocado de roupa, ter arrumado a casa, não ter bebido nenhuma gota de álcool, não ter ouvido vozes até agora.  Nesse dia eu agradeço por ter atendido o telefone nas vezes que ele tocou, por ter ligado para um local especializado para fazer terapia e colocar minha filha na terapia, por ter comido pouco chocolate, por ter dado muito carinho a minha filha, por ter comprado o brigadeiro que ela gosta, por ter feito a comida da dieta do meu marido, por ter tratado ele bem, por ter guardado as roupas que estavam jogadas em cima da mesa e por estar viva. Só por esse dia. São 24 horas de uma roleta russa. Que as próximas 24 horas sejam de sucesso e que a roleta gire a favor da minha vida e não contra.

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