segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Telma

Eu lembro do barulho das chaves e da bolsa sendo jogada em cima da mesa. Isso significava que a minha mãe tinha chegado em casa. Depois os passos até o banheiro da suíte dela e uma pausa para o ataque dos filhos, da mãe, da empregada, de todo mundo. Essa é uma das lembranças mais fortes. E o cheiro dela. O cheiro inconfundível de acqua fresca que perfumava qualquer ambiente em que ela estivesse. A vovó Hélia servindo a mesa para ela jantar e ela sentada na cabeceira comendo sua salada e tomando seu mate. Mas também lembro da mãe que ia comigo e com meus amigos para as noitadas onde bebíamos litros de cerveja, participávamos de rodinhas de violão, conversávamos sobre qualquer coisa... momentos em que além de minha mãe ela era como qualquer um de nós. Hoje em vejo que ela era tão super protetora comigo, mas tão super protetora, que eu passei a vida toda grudada nela como gêmeas siamesas.  Se ela saía com seus amigos eu ia junto, se eu saía com os meus ela ia junto, se ela resolvia fazer um curso me inscrevia junto, se eu desejava fazer um curso ela entrava junto. Eu demorei a entender o porquê dessa atitude dela, mas consigo perceber que tinha relação com o traumatismo craniano, com a observação constante das possíveis sequelas que poderiam ter havido e por causa do transtorno bipolar, que soube que ela diagnosticou logo mas provavelmente não quis tratar por causa das medicações. Hoje em dia eu não lembro tanto do câncer e do que nós duas vivemos juntas por causa da doença, eu consigo lembrar mais das coisas boas. E hoje eu sei que ela sempre soube quem eu era, a doença que eu tinha, e tudo o que eu enfrentava, mesmo que ela nunca tenha conversado comigo diretamente sobre o assunto. Ela me preparou para muita coisa.
Eu lembro das fases do cabelo. Fase careca por causa da quimeoterapia. Fase joãozinho por que o cabelo tinha voltado a crescer. Fase meio que black power porque o cabelo estava gigante mas ficava em pé, só que como não era "original black" não ficava armado (rsrs)...
E um dos momentos mais doces que eu tive com ela foi quando ela já estava perto de falecer e a medicação estava fazendo as unhas dela ficarem escuras. Ela nunca pintava a unha, eu nunca tinha visto minha mãe pintar a unha, ela dizia que eram unhas de médica - cortadas bem rente e bem limpas. Eu sugeri que ela pintasse as unhas de uma cor colorida para disfarçar o tom escuro e ela aceitou. Eu nem acreditei. Achei o máximo. E pela primeira vez lá estava eu, enquanto ela estava deitada na cama já meio debilitada, pintando as unhas dos pés da minha mãe de um vermelhão bem forte. Ela não podia tirar nem as cutículas por causa do perigo de infecções, mas ficou lindo e foi um dos momentos mais especiais que eu tive com ela.
E nossa terapia de família na época em que eu fiquei ultra rebelde. Nossas discussões homéricas. E tantas outras lembranças muito legais.
Quando fomos ao show do Kid Abelha no maracanãzinho, quando ela me levou ao show do Lulu Santos que era um dos meus ídolos na época e depois contou para todos os amigos que eu subi em cima da mesa e fiquei gritando que amava ele. E quando ela me levou no show da Cássia Eller com o namorado dela e morria de rir porque eu ficava gritando e porque eu fiquei horas na porta do camarim para pegar um autógrafo até a mulher da Cássia Eller falar que ela não estava em condições de atender ninguém.
Ninguém nunca acreditou tanto em mim, teve tanta fé em mim como a minha mãe.
Ela quase pirou quando eu entrei na PUC. Falava pra todo mundo que eu era "filha da puc". 
Ela curtia com nós 3. Curtiu o intercâmbio da minha irmã, as aventuras do meu irmão, meus inúmeros namorados, e casos, e afins. 
Quando eu chamei ela pra conversar para dizer que eu ia perder a virgindade sabe o que ela fez? Me levou no nosso ginecologista, que tinha sido professor dela e feito os partos de nós 3, pediu para ele conversar comigo e me dar pílula. Depois me deu uma lingerie de cor vinho de veludo super chique e foi conversar com meu padrinho para pedir o apt dele que estava vazio emprestado. Essa era a minha mãe.
E mesmo não acontecendo como eu havia previsto, nem quando ou com quem eu havia previsto, quando eu perdi a virgindade foi simplesmente assim: eu sentei na cama dela pra falar de alguma coisa que  não tinha nada a ver com isso e ela olhou para mim e disse que meus olhos estavam com um brilho diferente e que ela tinha percebido que eu tinha me tornado uma mulher. Eu fiquei pasma. Ela soube só de me olhar.
E quanto tempo ela me levou para dormir na cama dela com ela por causa dos meus pesadelos e da minha mediunidade.
Eu poderia ficar falando sem parar dela, e gostaria, mas quis apenas fazer uma pequena homenagem à mulher espetacular que eu tive como mãe. 
Saudade daqueles olhos, daquele sorriso, das expressões que sempre tinham seus próprios significados, de ouvir ela cantar nas reuniãozinhas, de cuidar dela, de ficar com ela no hospital, e de aprender, como eu nunca mais aprendi e nem acredito que vá aprender com alguém.
É isso. Mãe, eu te amo, e eu nunca encontrei outra pessoa igual a você. Receba esse amor imenso e incondicional onde quer que você esteja, e de sua netinha Sophia também. E se você estiver mesmo reencarnada na minha filha, como a vovó Hélia dizia, saiba que eu cuidarei de você com o mesmo amor e o mesmo cuidado que você cuidou de mim e espero que eu possa aprender um pouco mais com o seu espírito através da minha filha.

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