quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"E a verdade vos libertará" - parte 1

E a verdade vos libertará. A verdade liberta mesmo quando carrega dor, renúncia, sofrimento. Eu recebi um email que veio com essa frase e muita coisa veio na minha cabeça, coisas que eu tenho pensado e não tenho escrito. 
Após várias pesquisas e leituras sobre Transtorno Bipolar eu fiquei com uma pergunta na minha cabeça que não sei se tem resposta: O que em mim é doença e o que em mim sou eu?
A vida como Bipolar é fantástica na maior parte do tempo, emocionante, excitante, intensa, cheia de prazer... Na maior parte do tempo a verdade é essa. E também é verdade que a maior parte dos Bipolares entrar num tratamento é renunciar a toda essa vida fantástica de sexo, drogas e rock n´ roll (nem todos os Bipolares usam drogas, ou são promíscuos, mas a maioria é). Pegue como exemplo um Cazuza, um Elvis, uma Janis Joplin, e eu estou falando de pouquíssimos exemplos pois a lista é gigantesca. Além de muitos dos criadores e grandes inventores e cientistas da humanidade. Se eles escolhessem ter feito tratamento eles não teriam sido quem eles foram, não teriam vivido o que eles viveram. Provavelmente também não teriam morrido do jeito que morreram e nem tão cedo, mas a verdade é que o tratamento torna a vida cinza, sem graça, monótona, insignificante. Eu diria que um Bipolar ou morre por causa das consequências dos seus momentos maníacos, ou morre em consequência das fases depressivas ou morre por causa do tédio quando está em tratamento. Ou seja, no final das contas ele acaba morrendo, em geral se matando (voluntariamente ou involuntariamente) de qualquer jeito.
O pensamento é "medicada eu não sou ninguém, não significo nada".
E o pior é lidar com a percepção das fases quando medicada e num evento social. Porque apesar de medicada o comportamento ainda assim poderá ser maníaco ou depressivo, ou os dois.
Palavrões em excesso, tom de voz alto e alterado, piadas inconvenientes, não deixar os outros falarem, contar mil histórias sobre feitos incríveis da própria vida, álcool em excesso, comentários sobre a vida sexual, sobre a vida íntima e sobre sexo em geral. E isso só pra citar o básico. E por mais que tudo isso seja percebido é praticamente impossível controlar.
E o excesso de sinceridade, de honestidade, de franqueza. A necessidade de defender o próprio ponto de vista mesmo que isso custe um momento importante, uma pessoa importante. O perigo constante de um surto psicótico.
Tudo isso é exaustivo emocionalmente, fisicamente, espiritualmente.
E a verdade é que eu já não sei mais o que é melhor - viver como Bipolar sem tratamento ou com tratamento. O tratamento não trouxe tanta melhoria na minha qualidade de vida quanto eu esperava e não me fez melhorar como mãe, como familiar, como amiga, como profissional... Quando eu estava em fase maníaca pelo menos eu amava e curtia a vida e era mais dinâmica, mais produtiva. Esse é o problema. Fazer um Bipolar optar por deixar de ser produtivo ou dinâmico voluntariamente é quase impossível. Para chegar-se a um resultado de equilíbrio com a medicação pode-se levar anos, em geral 20 anos até que se acerte a medicação ideal. Medicação que é para a vida inteira, todos os dias, de manhã, de tarde, de noite, vários remédios diferentes, mudados o tempo todo. É horrível!
A verdade é que eu ia falar sobre uma coisa nesse post e acabei nesse assunto, então vou dormir e amanhã escrevo sobre o que iria escrever mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário