cura o meu corpo
chove em mim água divina
Não me canso de poetizar e de sentir nostalgia cada vez que chove.
Eu tão pequena ouvindo a vovó dizer que São Pedro estava lavando o céu e arrumando os móveis cada vez que chovia em Guapimirim. Guerras de lama, bifes feitos de terra com saladas feitas de plantas, o cheiro inquestionável e delicioso de chuva...
Eu me preparava olhando através das janelas esperando a chuva chegar para começar as muitas brincadeiras que ela proporcionava. Atrás da casa o rio corria tranquilo até se transformar numa corredeira violenta que arrancava tudo que encontrava pelo caminho e, às vezes, invadia o quintal e até a cozinha.
Dentro de casa as telhas não impediam os pingos de entrarem e poças eram formadas por todos os cômodos me fazendo morrer de rir com a correria dos adultos segurando baldes e panos.
E noites com velas acesas por causa da falta de luz e a vovó jogando "caça palavras" na grande mesa de madeira que fazia conjunto com o restante dos móveis da casa.
O barulho da chuva nas telhas era como uma orquestra, mas não melhor que o barulho das cigarras que cantavam uníssonas antes da chuva chegar como um alarme da natureza. Cigarras e sapos. O sussurro que gritava para todos que era hora de tirar a roupa do varal e fechar as janelas.
Ai que delícia! Fecho os olhos nesse dia de chuva e ainda consigo sentir tudo isso. É como se eu pudesse tocar a geladeira vermelha com o pinguim em cima. É como se eu pudesse ouvir o barulho das panelas na cozinha e sentir o aroma das rosquinhas caseiras ou dos bolinhos de chuva.
Os carros atropelam as poças na rua e eu só queria levantar da cama e correr para fora para sentir os pingos de chuva caindo no meu rosto. Lembrar de guapimirim e dos dias nublados que eram sinônimo de brincadeiras, de alegria e do amor dos meus avós.
Nenhum comentário:
Postar um comentário