quinta-feira, 20 de maio de 2010

Lembranças em potes de maionese

Termino o meu dia pensando porque não podemos aprisionar o tempo, os segundos, num pote de maionese que pudéssemos guardar dentro da geladeira. Não é bem o tempo, mas as lembranças e as sensações deliciosas e alegres do passado. E em dias como esse iríamos até a geladeira e pegaríamos esses potes para poder sentir o que não conseguimos sentir hoje. Sentir o cheiro do terno do papai e sentir como se fosse hoje a alegria de ver da varanda o ônibus do condomínio chegar sabendo que ele estaria em casa em minutos. Sentir o gosto das balas azedinhas da kopenhagen que ele comprava para nós no caminho. Sentir o cheiro do perfume da água de cheiro que a mamãe usava e poder ouvir o barulho das chaves sendo colocadas em cima da mesa quando ela chegava em casa. Abrir um pote e ganhar um pouco daquela alegria e orgulho que eu sentia em relação ao meu irmão e saber que ele estaria ali para mim e para a Sophia como era antigamente. Poder sentir, pelo menos um pouquinho, que ainda tenho alguma importância e tirar daquele pote de maionese os momentos maravilhosos que sempre existiram entre nós dois. Para tirar as lembranças com a vovó eu teria que ter um pote maior, um pote muito grande. Um pote de onde eu pudesse tirar um grande pedaço de memória e sentir o barulho do riso dela ao ver as travessuras da Sophia ou ouvir a sua voz me chamando para pedir alguma coisa... eu gostava tanto de ouvir ela me chamar para pedir alguma coisa, qualquer coisa, e era como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo porque ela existia para mim e eu existia para ela.
Não existem tais potes de maionese repletos de lembranças do passado e memórias maravilhosas. Quando perguntam para mim porque eu fiquei tão presa ao passado e porque é tão difícil andar para frente a resposta é muito fácil. Não existe mais aquela sensação deliciosa de amor que eu sentia porque meu irmão existia e não existem mais momentos maravilhosos do tio-herói com as crianças. Não existe mais a vovó botando ordem na vida de todos nós e mantendo todo mundo unido e conectado. Também não existe mais os almoços de domingo com todo mundo sentado à mesa e nem os feriados em que ficávamos juntos independente de namorados e namoradas porque a família vinha em primeiro lugar. Não existe mais nada. Eu não fiquei orfã só de pai, de mãe e de avós...
Os potes de maionese estão repletos de sobras de comida porque a família ficou muito pequena. Os domingos são cheios das risadas das crianças, solitárias, correndo em volta de duas irmãs que lutam para dar a elas a sensação cálida de família. O cheiro que fica no ar é da minha comida nas panelas da cozinha e do perfume juvenil da Sophia. O telefone quase não toca mais e sinto falta das muitas ligações que a vovó fazia durante o dia para saber de mim e da bisneta. 
Eu SEI que estou estagnada, eu SEI que estou presa demais ao passado, eu SEI que não estou conseguindo seguir em frente. Não existem milagres para os vazios do coração. Existem dores e questões dentro de mim que são excruciantes. É como ser torturada infinitamente e não conseguir fazer parar. A tortura não para nunca, a dor não para nunca por mais que se implore. Para certas dores não existe antidepressivo, nem antipsicótico, nem calmante. Para certas dores a cura vem de fora e não vem de nós, portanto estamos destinados a sofrer indefinidamente. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário