Era uma coisa de pai e filha, ninguém mais participava. Meu pai tinha o costume de ler os jornais todo dia de manhã depois que acordava e às vezes eu o fazia se sentar no chão da sala e pedia para fazer as suas unhas. Não é que ele fosse do tipo de homem que gostasse de fazer as unhas, mas ele aceitava ser minha cobaia porque eu adorava tirar cutículas, pintar unhas e costumava fazer a de todo mundo lá em casa.
Quando minha filha quis pintar minhas unhas eu me lembrei desses momentos.
Meu pai sentado no chão, pernas estendidas e eu fazendo suas unhas dos pés e das mãos. Com direito a esmalte colorido e tudo mais. Depois tirava tudo com acetona e nos divertíamos com aquilo. Hoje eu lembrei de algo singular sobre o meu pai e sobre esses momentos. Eu me lembrei que o meu pai tinha dois dedos do seu pé diferentes, como se fossem um só, o que chamariam de um defeito. Era um defeito para os outros, mas para mim era algo especial, algo que o diferenciava e que era só dele. E hoje, quando as lembranças vieram, o que veio mais forte à minha memória foi justamente isso.
E as mãos, grandes, delicadas, as unhas quadradas, as unhas do meu rei, do meu pai...
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