sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Loucos são os outros

Eu estava assistindo ao canal E! um dia desses e passou um programa sobre celebridades que sofrem de distúrbios mentais (eles não intitularam distúrbios psiquiátricos, disseram apenas mentais). Como eu sofro de Transtorno Bipolar eu achei interessante principalmente porque sabia que a Linda Hamilton ia falar do caso dela. De tudo o que foi falado, de todos os transtornos e distúrbios e patologias - alimentares, do sono, TOC, agorafobia, etc - o mais interessante foi notar na relação das outras pessoas com os "pacientes", famosos ou não. Deve ser uma barra pesadíssima conviver com pessoas que possuam qualquer tipo de problema mental. Às vezes eu me coloco no lugar da minha filha, por exemplo, que só tem 8 anos atualmente e imagino o que ela pensa. Eu tenho distúrbios seríssimos de sono e é muito comum ter fases em que troco o dia pela noite (ou vice-versa). Então, quando eu levo ela pra escola (não é incomum eu levá-la com a calça do pijama de sapinhos que, mesmo fashion, é uma calça de pijama) eu ainda não dormi, ainda estou acordada desde o dia anterior. Quando volto da escola ainda fico acordada um tempo e depois durmo. Porém, nos fins de semana, feriados e férias, nos momentos em que ela não vai para a escola imagina a doideira que é para ela - ela acorda muito cedo pois o organismo ainda está acostumado com o horário escolar e a mãe não consegue sair da cama pois foi dormir lá pelas 8 horas da manhã. Minha filha criou o seu próprio esquema para passar a manhã sem mim. Eu não sou uma mãe ruim, ao contrário, sou uma ótima mãe e ela me adora, além disso, ela sabe que eu tenho um problema, que eu tenho uma doença e tem conhecimento de tudo que é possível passar para ela sobre o assunto.  Ela sabe que pode me acordar com beijinhos a partir de um determinado horário para eu fazer o almoço e para eu brincar com ela, ela sabe que depois que ela começa a me beijar eu ainda demoro um tempinho para levantar pois tenho dificuldade para despertar por causa dos remédios, mas ela participa de tudo com humor e paciência.
Eu vivo dizendo nos meus posts que cada dia é uma vitória para mim exatamente como nos alcóolicos anônimos. E quem participa da minha vida deve se sentir da mesma maneira, penso eu.  Porque ninguém sabe com o que vai lidar quando me vê. Nem eu. Isso é uma merda! A pior parte de ter Psicose maníaco depressiva é você nunca saber quem você realmente é - e é nesse ponto que eu queria chegar.
Quando assisti o programa na televisão foi exatamente isso que a maioria das pessoas que falou sobre ser Bipolar reclamou - não ter conhecimento da sua essência, não saber quem realmente era no final das contas. Porque ser Bipolar é ser um monte de personagens, um monte de coisas, uma caixa de mágicas e de surpresas eternas. Parece maravilhoso quando se imagina, mas na prática é cansativo, pois nunca sabemos do milésimo de segundo seguinte.
Magoamos quem amamos sem sentirmos, sem percebermos porque na verdade nem notamos que fizemos algo errado. Não temos medo da morte, não temos medo de arriscar, não temos medo de pular no abismo. E não se enganem a respeito do tratamento. O tratamento é um caminho cheio de curvas, buracos, montanhas e surpresas. É longo e não tem fim. Cada remédio que colocamos na boca muda completamente nossa percepção do mundo e das coisas e, como consequência, muda completamente quem somos. Então, nossos amigos e familiares nos encontram eufóricos e saltitantes, cheios de energia num momento, e apáticos e lentos no outro. 
Eu vivo com medo. Medo de exagerar ou de não fazer diferença nenhuma no momento seguinte. Medo de falar de mais ou de não falar nada. Medo de fazer os outros gargalharem ou de fazer os outros chorarem. Eu vivo constantemente com medo. E, pior, muito triste com a vergonha que os meus irmãos possam sentir de mim, ou da vergonha que eu possa fazer eles passarem nos momentos em que estou na fase eufórica e só falo sacanagem e palavrão. Todo mundo acha que nós podemos nos controlar. NÓS NÃO PODEMOS - É BIOQUÍMICO! A única coisa que nos controla chama-se > medicação, remédio, droga. 
Sabe o que é engraçado? Se estamos na fase eufórica, maníaca e falamos demais, estamos agitados demais, saltitantes demais, tudo demais, todo mundo fica desesperado e nós vamos no psiquiatra e nos entupimos de reguladores do humor, ansiolíticos, etc etc etc. Tomamos vários remédios e ficamos calminhos, tão calminhos que ficamos calados, lerdos, sonolentos, caseiros, quietos, anti-sociais, meio bichos do mato. Então o povo se desespera e diz que tem algo errado e nos levam pro psiquiatra e reclamam. Então paramos os remédios, mudamos tudo e voltamos a ficar eufóricos. É uma montanha russa emocional, um ciclo sem fim e por isso nós "piramos" mais ainda. Nesse exato momento eu estou vivenciando uma fase mais eufórica e as pessoas estão tensas (palavra simpática e leve para definir). Mas há pouco tempo atrás eu estava mais deprimida, melancólica, não saía de casa e todos estavam... tensos (queriam que eu saísse da cama, que eu fizesse alguma coisa, que eu conversasse...).
Para um Bipolar tudo isso é muito difícil. Eu amo agradar a todos. Eu amo minha loucura, eu amo fazer merda, amo me foder e foder com tudo. Ficar bem é um tédio, um mal necessário porque sei que isso é importante para as pessoas que amo. Mas a verdade é que a loucura é meu vício, meu combustível. Quanto mais louca eu "estou" mais feliz eu fico. Me tratar para a Bipolaridade é como entrar numa clínica de reabilitação e parar de cheirar cocaína ou fumar crac (nunca usei essas drogas, mas comparando pra ser bem dramática e bem forte é mais ou menos por aí). Ninguém imagina as coisas que eu já fiz ou pelas quais eu já passei por causa da minha loucura. Um Bipolar não tem limites! Não tem limites MESMO. Tudo pelo prazer e pela loucura.
Mas, voltando aos meus pensamentos que andam meio desconexos...
Eu cheguei à conclusão após muita observação que loucos são os outros. Porque apesar de louca eu amo o próximo, eu sou incapaz de fazer mal a uma mosca, eu amo incondicionalmente, eu tenho mais fé que todos os padres que conheço, sou mais desapegada que...sei lá...
o que eu quero dizer é que enquanto todo mundo me rotula de louca porque eu tenho psicose maníaco depressiva e tomo remédio e me consulto com psiquiatra e coisa e tal...
eles agem mais como loucos do que eu...
eles se comportam como animais pré-históricos...
eles se comportam como primatas...
eles tripudiam, humilham, enganam, passam por cima, e coisas piores que não vou ficar perdendo meu tempo escrevendo aqui...
e eu é que sou a louca????
Cantando com Ney Matogrosso... "... mas louco é quem me diz...
                                                       e não é feliz, não é feliz...!" 

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