Ele estava deitado na cama assistindo TV, mas não estava prestando atenção. Na verdade, nada mais chamava a sua atenção. Folheou umas revistas, jogou um pouco no computador, comeu torradas com pasta de atum e tomou dois copos de refrigerante. Sorriu. Para que comer e beber se ele pensava em tirar a vida dali a pouco.
Era como um casamento. Ele seria chamado ao altar e teria que decidir se diria sim ou não à morte e, como ele bem sabia, essa decisão muda a vida de qualquer um dramaticamente. A morte parecia mais tranquila que o casamento, menos estressante e sem cobranças. Seria?
Ele tomou um rápido banho e lavou o rosto com produtos específicos para espinhas. Há algum tempo que ele vinha apresentando problemas que nunca havia tido como espinhas, obesidade, queda exagerada de cabelo.
Não sabia muito bem se devia ou não tirar a vida.
Entretanto havia percebido há algum tempo que nada mais fazia sentido ou o agradava. Era uma vida vazia, mecânica, sem prazer ou perspectivas.
Ele tinha tudo, mas era como se não tivesse nada. Seu apartamento não parecia seu, nada o apetecia e ele não tinha vontade de fazer absolutamente nada.
Não é que ele achasse o mundo injusto ou que achasse que nada havia dado certo para ele, pois tinha dado.
Deitado em sua cama pensava no momento do sim.
Sentia a morte ao seu lado esperando ansiosa o momento de tê-lo.
Uma sensação de adeus. Olhava cada parte do quarto e das suas coisas.
Teve vontade de beber as garrafas de smirnoff ice, de vinho, de amarulla e de cachaça que tinha em seu bar. Existem certas coisas que devem ser aproveitadas e não devem ser deixadas para trás, para os outros.
Lembrou do chocolate da Kopenhagen guardado no armário e sentiu vontade de comer miojo.
Pensou em todos os amores que teve e em tudo o que havia vivido.
Segurou a caixa de remédios em suas mãos e teve dúvidas. Remédios? Como homem que era deveria apelar para algo mais forte e mais dramático. Pensou em se jogar da varanda, mas morava em andar baixo. Pensou em se enforcar, mas não gostava muito da visão de um enforcado e gostaria que quem o achasse visse uma imagem melhor. Existiria uma imagem melhor?
Olhou tudo a sua volta novamente. Pegou a faca mais afiada da cozinha e riu pensando na raiva que as mulheres da casa iam sentir, pois adoravam aquela faca.
Sentou na beira da cama. Colocou no canal da MTV. A morte sentou do seu lado.
Ele olhou bem nos olhos dela e pensou que era o momento do sim. Ou não.
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