segunda-feira, 7 de abril de 2008

Contos insólitos da dengue III

A questão é válida. Como é possível sermos vencidos em pleno séc. 21 por um mero mosquitinho tropical?
Não estamos sendo vencidos pelo mosquitinho, as pessoas não percebem isso.
Estamos sendo vencidos pela ignorância humana.
Não é o mosquitinho que mata a gente, nem a doença (de uma certa maneira).
O que mata a gente são os médicos que nos mandam de volta para casa sem fazer exame de sangue e diagnosticando virose... a maioria das crianças que morreram passaram por um bom hospital e por atendimento antes de morrer... uma delas morreu depois de ser atendida na triagem, ficar mais duas horas na fila de espera, de um hospital particular conceituado que é o mais famoso da região onde fica o meu novo apt, jacarepagua. Outra morreu depois de ser diagnosticada com virose (não ter feito exame de sangue) no Prontobaby da tijuca.
O que mata são os milhares de imbecis que não cuidam das suas coisas... suas caixas d'água, suas plantas, seus pneus, suas piscinas, baldes e banheiras...
O que mata são os orgãos de fiscalização que não verificam terrenos e casas abandonadas, carros abandonados, piscinas cheias de água parada há meses, anos... em locais que deixaram de morar pessoas...
O que mata é um pai, uma mãe, economizar uns trocados para comprar produtos contra mosquitos... colocar uma calça nos filhos, verificar as condições dos locais onde os filhos frequentam e conversar com os outros responsáveis...
Dia 31/03/2008 eu fui no condomínio Parque das Rosas comer no El Pallomar para comemorar o aniversário da minha cunhada. Sentamos perto de um chafariz desativado com água parada. Questionamos o garçom que disse que a água era trocada regularmente e que o chafariz era cuidado. Ainda brincamos dizendo que com certeza haveriam mosquitos da dengue no Rosas. Brincadeira ou não, coincidência ou não, logo depois eu estava com dengue. Pode ter sido ou não ali, nunca saberei.
Qualquer lugar é arriscado.
Cuido da Sophia, cuido do Dio, mas sempre esqueço de me cuidar.
Ela passa off kids antes da escola, durante e depois. Ela passa o dia todo e até na hora de dormir. Borrifamos repelente no quarto todo. Dormimos com a janela fechada, entre outros cuidados possíveis.
Somente agora começaram a anunciar o perigo de hepatite e sobrecarga do fígado em virtude do uso do tylenol para o tratamento da dengue.
Eu tomei 8 comprimidos de tylenol.
O médico falou que mais um ou dois e o meu fígado não teria suportado. Tomei tylenol a minha vida toda.
Bebi feito uma jagunça cachaceira e nunca tive nada no fígado.
Não ia morrer de dengue... ia morrer de hepatite descoberta e causada por causa da porra da dengue.
Não morri de porra nenhuma. Só de desgosto e vergonha.
Em pleno séc. 21 não ia ser um mosquitinho que ia me matar.
Ia ser esse espírito de ignorância, esse defeito de brasileiro (eu sou a mais patriota de todas mas isso realmente é coisa de brasileiro... nem terceiro mundo é assim!) de não cuidar das suas coisas, de não valorizar, de não brigar com o governo pelos direitos e de não correr atrás do que é certo...
Estou bem melhor...
E cada dia mais puta.
Valeu a pena pelo médico gostoso ruivinho.... o Ranz melhorado (muiiiitooooooooooooooo melhorado)....
Mas, imagina morrer de dengue em pleno séc. 21?
Eu merecia um fim mais digno da minha história, né?


Nenhum comentário:

Postar um comentário