Confusa, muito confusa. Mais mentiras, mais fofocas, coisas que eu não quero, não preciso e não procuro. Mesmo quieta, mesmo recolhida e alheia às coisas do mundo eu sou protagonista de coisas que eu não vivi, que eu não falei e das quais eu não participei. Quanto mais isso acontece menos eu saio de casa, menos eu atendo o telefone, menos eu quero contato com o mundo. O aniversário da minha filha está próximo. Ela é a minha vida, ela é o que ainda dá sentido à minha existência. Já não choro mais saudades não merecidas. Abro a geladeira e sinto falta do passado. As garrafas de molho de tomate caseiro da vovó Ricardina e sua salada de vagem com ovos, o pote de salada de batata com maionese eterno na geladeira da vovó Hélia e o strogonoff da sexta feira. Não sinto mais nada quanto entro no apartamento que foi palco da minha vida por tantos anos a não ser tristeza e muita dor. Não é mais um lar, é apenas um imóvel esperando para ser vendido e se transformar numa remota lembrança de bons tempos. Apenas um apartamento sujo, com paredes comidas pelo cachorro e sem nenhuma semelhança com o lugar em que eu cresci a não ser pelos números acima da porta e pelo endereço das correspondências. Queria entrar e ver minha avó sentada na sua cama vendo tv e lendo livros espíritas. Queria entrar e ver a cozinha arrumada a seu gosto com as panelas em cima do fogão. Queria sentir mais uma vez a sensação de que ali era o meu porto seguro e não um lugar onde eu não me sinto bem vinda. Passo pelo hospital italiano e lembro das tantas vezes em que levei minha avó Ricardina em suas consultas, para logo lembrar dos vinte e tantos dias em que fiquei o dia inteiro sentada com esperança de que ela sairia dali para logo depois ir abraçar seu corpo gelado pela última vez. E caminho pela tijuca lembrando dos nossos passeios, das idas ao mercado, e de todas as referências que me lembram dela e do vovô. O vovô que dava paçoca para Sophia, o vovô que sentava na poltrona para contar dos seus dias de funcionário público e das suas conquistas incríveis apesar da infância difícil. É como se fosse um filme em preto e branco, uma imagem do passado. Nada do que eu possuo hoje consegue substituir a saudade que eu tenho daqueles tempos e a alegria que eu sentia por eles existirem e por eu poder fazer parte das suas vidas. Nada é capaz de fazer melhorar a dor da saudade. Ninguém sabe das minhas noites sem dormir, das madrugadas acordada chorando, dos dias intermináveis em que é necessário fingir que está tudo bem quando não está. E ver a Sophia perguntando pelo tio e chorando de saudade, ver tudo tão diferente, só piora as coisas. Estou tão cansada de tanta maldade, tanto egoísmo, tanta desilusão. Algemada à vida, comprometida com a responsabilidade de criar uma filha e faze-la feliz, culpada por desejar sumir quando existe um companheiro que precisa de mim e uma filha que não saberia viver sem a minha presença. E tantos outros problemas que não conto para ninguém por achar que os outros não precisam sofrer junto comigo ou por mim. Suportando eternamente o calvário da bipolaridade, da montanha russa de euforia e depressão, cada vez mais depressão... e falta de dinheiro para ir ao psiquiatra, e falta de dinheiro para comprar os remédios que me mantém equilibrada... e tão deprimida... tão deprimida que é um milagre ainda estar viva.
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