Que dignidade pode ter alguém que não consegue viver e sustentar a sua própria família?
O que é, efetivamente, família?
Existe diferença entre família pobre e família rica?
Será que eu sou um estorvo para a minha família?
Não sinto nenhuma dignidade. Não sinto nenhuma alma dentro desse corpo.
Saí de lá como um trapo que deixa o banquete dos milionários e atrapalha o curso de suas vidas.
Ainda me sinto um trapo.
Não tenho dúvida nenhuma de que grande parte do que está acontecendo tem relação com a minha ausência na casa de meu Pai, para onde devo voltar imediatamente.
Também sei que fiz escolhas na vida que me custam hoje em dia um preço alto e a completa falta de dinheiro, mas que garantiram a felicidade de pessoas que eu amo muito.
Às vezes sinto tão forte a sensação de família, às vezes não sinto nada.
Cada um com seus problemas, cada um por si.
Não durmo, só faço chorar. Choro de raiva, de vergonha, de humilhação, de emoção, de orgulho, de surpresa...
Mais uma madrugada, mais uma escolha: dormir e acordar ou dormir e dormir?
Rezo para que o dinheiro que temos dure até o fim do mês.
Não culpo ninguém só a mim mesma.
Mas também não esqueço de certas palavras que foram ditas e de certas atitudes tomadas.
É fácil agir de certas maneiras quando estamos bem, quando estamos por cima.
Eu não estou por cima.
Onde está a dignidade que é inerente aos que têm controle sobre as suas vidas?
A dignidade que me resta é fruto da pessoa que eu sou,das coisas em que acredito, dos meus valores, da minha religião.
Mas onde está a dignidade que nos garante olhar nos olhos do outro e não nos sentir inúteis, insignificantes, montes de merda?
Procura-se dignidade. Perdida há cerca de um ano. Necessária para fazer uma pessoa que não tem dinheiro para participar de negócios da família desejar continuar viva, necessária para alguém que não tem auto-estima para ir à festinhas infantis no condomínio e que não tem amor-próprio para dizer o que pensa aos familiares e às outras pessoas.
Procura-se dignidade para uma pessoa que não sabe viver sem ela.
Procura-se dignidade para uma pessoa que não sabe mais viver.
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