Não fale comigo agora.
Nada do que você disser poderá diminuir a dor que sinto.
Todos têm tanto para dizer e para desejar e para consolar, mas não existe absolutamente nada que possa curar esse imenso buraco que passou a existir no meu peito.
E não, não vai passar da mesma maneira que o amor que eu sentia não passará.
Não quero que me toquem, não quero que falem comigo, não quero que tentem salvar a minha alma sofredora. Cada pedaço do mundo, do ar, da rua, do céu, da casa, é uma lembrança cruel da minha perda. Não haverão mais telefonemas durante o dia para contar de cada coisinha que aconteceu comigo ou com o maior amor da vida dela, que era a bisneta Sophia. Não terei mais a amiga que me aconselhava sobre o marido, sobre o lar, sobre a vida. Não terei mais a avó que cuidava de mim e que zelava cada passo que eu dava de uma maneira que eu nem sabia como.
Não poderei mais cuidar dela e levá-la ao médico e contar piadas para fazê-la rir. Ou presenteá-la constantemente com guloseimas e mimos que eu e Sophia sabíamos que ela amava. Semana passada paguei 3 mil reais de multa por causa das vezes em que, desesperada por causa de algum súbito mal estar que ela teve, eu dirigi a 250km/h e furei todos os sinais para chegar o mais rápido possível no hospital.
E no dia que ela faleceu, antes de eu ser notificada, eu me preparava para buscar a Sophia na escola e ir passar a tarde com ela cheia de novidades e ansiosa para combinar o meu aniversário.
Nesse momento, sentada em frente a esse computador eu imagino o que será que ela pretendia me dar de presente, pois ela nunca esquecia do presente e fazia questão de me presentear com algo que me deixasse muito feliz e realizada, mesmo quando esse presente custava cinco reais e era simples. Porque para mim o que eu queria da minha avó era amor, todo o amor do mundo. Esse sempre foi o maior presente que ela podia me dar.
Eu amava enfeitá-la para sairmos e uma das coisas que ela mais gostava era se perfumar com o perfume de açúcar e canela que minha amiga Glória, que adorava ela, havia dado de presente. E os cabelos. Ah, os cabelos! Tinham que estar impecáveis, presos, cuidados.
Tivemos nossas fases de guerra e ódio, terríveis por sinal. Mas no final das contas o que representa o que sempre fomos uma para a outra é a minha lembrança das noites dormidas em Guapimirim no quarto dela e do vovô João quando, no meio da madrugada, eu levantava da minha cama e me enfiava entre os dois, meus amores, e ela ternamente levantava da cama e ia dormir na minha para deixar mais espaço para o meu dengo com o vovô.
Era uma grande mulher, boa de coração, lembrada por todos que moram onde ela viveu a maior parte da vida por sua generosidade, por seu cuidado com qualquer ser humano que cruzasse seu caminho. Fazia qualquer coisa para ajudar os outros.
É lembrada no condomínio onde viveu conosco pelo carinho com os funcionários que a chamavam de vó e pelos pratos de comida e lanches que ela costumava dar para todos os que conseguia.
Por mim é lembrada pela infância maravilhosa que eu tive em guapimirim, quase como se eu vivesse num conto de Monteiro Lobato, com direito a banho de rio, fruta comida no pé, bolinho de chuva, bolos e muito mimo de avó. Mas principalmente pela bisavó maravilhosa que ela foi para Sophia com quem desenvolveu um amor e uma relação que ultrapassa todos os níveis de sentimento que eu conheço. Cuidando dela, cuidando de mim, provendo tudo o que se possa imaginar para nós duas, fazendo aniversários de sonho que eu não poderia fazer para minha filha e sendo, sem dúvida alguma, a minha melhor amiga e confidente, minha guia, minha orientadora, minha ouvinte, minha ídala e exemplo de mulher.
Sentirei falta do amor e das nossas porradarias, sentirei falta da preocupação com a minha vida e da intromissão às vezes indesejada nela, sentirei falta da implicância com meus namorados e amigos (mas hoje acredito que era apenas ciúme) e sentirei falta de ver a minha pequenininha dormindo abraçada às suas pernas, ou fazendo massagem nos seus pés doloridos, ou indo toda hora em seu quarto para abraçá-la e enche-la de beijos e carinhos. O vazio que não tem volta de nunca mais ver minha filha ligar quando saía da escola só para dizer que já tinha saído e saber se ela estava bem, e ligar de novo de tarde para contar alguma novidade, e depois de noite para avisar que ia dormir.
Então não fale comigo agora, não me toque, não tente entender.
A minha avó se foi e eu me sinto como se tivessem cortado um pedaço de mim, como se eu tivesse sido retalhada, violentada, espancada.
Gritei, quebrei o quarto todo, me cortei, pisei em vidros, me enchi de hematomas, gritei mais e mais e mais e mais, soquei o Dio, soquei a parede, rodei e rodei e rodei perdida que eu estava. Entrei em estado de choque e não lembro de vários dias e acontecimentos da minha vida desde a notícia.
E para fazer disso tudo um conto de Nelson Rodrigues o enterro foi no dia do meu aniversário. Fui com o vestido que tinha comprado para celebrar e um bolinho que levei para comemorar pela última vez, e a beijei tanto, mas tanto que sinto até hoje aquela sensação gelada da morte nos meus lábios. O meu limite foi ser avisada que serrariam o caixão pois ele não cabia naquele maldito buraco fétido vertical onde o corpo dela iria ficar. Então fui embora e não lembro de mais nada a não ser de cair várias vezes no chão e ser amparada por alguém.
Mas o maior presente ninguém mais teve. Receber a mensagem do quanto ela me amava e amava minha filha depois de alguns dias de sua passagem.
Aqui eu grito para o mundo: eu tive a família mais linda do mundo, as mulheres mais incríveis e guerreiras, uma mãe espetacular e essa avó fenomenal.
Estou solitária, me sinto sozinha, mas essa família que passou como uma estrela cadente foi a família mais foda, musical, boêmia, generosa, alegre, bagunceira, festeira, honesta, caridosa e linda que eu poderia ter escolhido ter.
Vó Hélia, se eu for metade da metade da mulher que você foi eu já serei uma mulher premiada.
Te amo eternamente, incondicionalmente, apaixonadamente, até que o universo vire uma noz.
Adeus minha musa. Suba na sua estrela cadente e faça o que sempre fez: realize desejos para ajudar os outros e brilhe. Brilhe muito.
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