quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

As festas de final de ano

As festas de final de ano chegaram.
Eu deveria estar dizendo: obaaaaa! como sempre, mas esse ano é diferente, é muito diferente. Para quem me lê talvez pareça um lenga-lenga, mas só quem vive o que eu estou vivendo pode saber o que eu estou sentindo. Não tem como imaginar, só passando por isso é possível saber. Ter 35 anos e não ter praticamente ninguém. A minha avó veio morar conosco quando eu tinha 8 anos de idade e meu avô tinha morrido por causa do coração. Ela viveu conosco todos esses anos, ela me criou. Na verdade eu e ela caímos na porrada a vida inteira, mas os últimos anos foram redentores para nós duas e ela se tornou a minha melhor amiga. Eu não tinha idéia do quanto ela era necessária, do quanto eu era viciada nela e na presença dela e no vício de cuidar dela e de estar com ela. Agora tenho.
As festas de final de ano chegaram e eu estou completamente perdida. Normalmente eu estaria me encontrando com ela todos os dias para planejar as ceias de natal e ano novo, pois eu cozinhava para a família toda e fazia as compras. Eu reunia as crianças para decorar a casa e fazer a lista de presentes para colar na varanda para o Papai Noel. Eu lembrava o meu irmão de comprar os bolinhos de bacalhau e lembrava a minha irmã de fazer a salada de repolho. Eu me preocupava de manter todas as tradições, de preservar a crença das crianças, de garantir que houvesse sempre muitos presentes na árvore, e, principalmente, eu fazia questão de fazer com que essas datas fossem exatamente do jeito que a minha avó mandasse e desejasse. Esse era o meu presente de natal: ver a vovó sorrindo na cabeceira da mesa ao comer a ceia que eu tinha feito, ouvir os elogios, ter a certeza de que as crianças tinham acreditado mais um ano que o Papai Noel havia passado por ali (dava um trabalho o processo de gritar que o trenó estava passando na varanda, colocar os presentes no hall, tocar a campainha, se esconder, etc etc etc).
O motivo principal de tudo isso sempre foi a vovó e as crianças. A ceia era para a vovó, os presentes para as crianças. E agora a vovó não está mais aqui. Meus avós não estão mais aqui. Ninguém está mais aqui. E ainda estão as crianças.
Eu sempre fui do tipo que me desdobrava para agradar todo mundo. Dia 25 eu ia almoçar com os avós paternos, dia 23 eu passava na casa deles para dar um beijo e dizer que dia 25 estaria lá. Dia 29 eu passava lá e dia 1 de janeiro eu estava lá também, porque dia 31 eu passava com a vovó Hélia. Era uma confusão do cacete mas eu tinha que estar presente para todos eles, eu fazia questão.
Esse ano eu estou vazia por dentro. Ainda não consegui decorar a casa. Minha filha disse que o Papai Noel deve estar triste comigo e que ele não vai saber o que ela quer de presente pois não colocamos a lista na varanda. Que merda!
Ainda não sabemos onde vamos fazer a ceia. Ainda não sabemos onde vai ser o ano novo.
Eu tinha dito para o Dio ir com a Sophia para SP, pois eu queria ficar em casa vendo tv e depois ir dormir. Não porque eu quisesse ou estivesse na fossa, mas porque não arrumei programa melhor. Eu sou 8 ou 80. Tenho que arrumar uma festa de arromba, uma viagem ou então é cama e tv.
As festas de final de ano chegaram. Elas sempre foram motivo de felicidade para mim e orgulho, pois eu tinha me tornado algo como a "matriarca" da família. As minhas lembranças de menina são das mulheres da família na cozinha bebendo cerveja, falando um monte de merda e cozinhando as delícias da ceia. A tia Maria Alice fazia torta de cebola, mamãe inventava cada ano uma coisa diferente, vovó fazia as carnes... os homens ficavam bebendo na varanda. Eu me tornei a soma das mulheres da família e fazia tudo o que elas faziam só que sozinha e além disso bebia o que elas bebiam e o que os homens bebiam também, pois eu gosto de beber pra caralho. rsrsrsrsrsrsrsrs
Agora eu não tenho motivação nenhuma para as festas de final de ano. Não tenho ninguém para cozinhar, não tenho amigos para receber e não tenho motivo para comemorar. Puta que pariu! Somos três irmãos, mas eu me sinto como se estivesse sozinha. Seria muito mais fácil se fôssemos realmente como três irmãos e se pudéssemos pelo menos estar juntos nesses momentos e eu tivesse para quem cozinhar, com quem beber e motivo para comemorar. Ainda mais depois do ano pesado e cheio de perda e decepção que tivemos.

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