quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mudanças

Mudança tem umas coisas bem especiais. Aparecem coisas desaparecidas, aparecem coisas que não sabemos de onde vêm, sentimos a energia das pessoas... E, realmente, muita coisa tem acontecido.  Estava fazendo a mudança devagar, no meu ritmo, no ritmo da minha filha e da minha avó, pois nós estamos sofrendo muito por ficar separadas. Levando um pouco de cada vez. Um dia saio de casa de manhã para resolver minhas coisas e passo o dia todo fora. Qual não é minha surpresa ao voltar pra casa e não achar mais o meu canto! Saí de casa tendo um quarto onde eu e minha família estávamos dormindo, onde estavam nossas coisas pessoais, e quando voltei, estava tudo em outro quarto "arrumado" em caixas de papelão. Aquilo acabou comigo, me partiu em duas. Me senti expulsa, despejada, jogada fora. Tocaram nas minhas coisas sem eu estar presente, mexeram nos meus "Santos" sem fazerem os rituais necessários e corretos, quebraram a cabeça da minha imagem de Jesus, sumiram com o meu carregador de celular, amontoaram minhas roupas de qualquer jeito,e o que é pior, me senti invadida. Entre as minhas coisas existem objetos, papéis, que são particulares. Tenho minhas intimidades sexuais, tenho papéis que só devem ser lidos por mim, tenho diários, tenho muitos objetos religiosos e esotéricos que demandam rituais e cuidados... Onde foi parar o respeito? Eu não estava na casa dos outros, eu estava na casa onde eu cresci, no meu apt, no apt onde vive minha avó. Sei que a raiva vai passar, mas a mágoa e a lembrança sempre ficam. É como se tivessem cortado um dos maiores sentimentos que eu tive a minha vida inteira. Sinto tanta falta da vovó. Falta de ver se ela está dormindo bem de madrugada, de acompanhar o dia dela, de ver se ela precisa de alguma coisa. Sei que ninguém vai ter o mesmo cuidado que eu tenho.
No apt novo mal se respira por causa do pó. Não temos onde guardar as coisas, pois os armários não estão prontos. Mas está ficando mais lindo do que eu imaginava. E é meu.
No meio daquela confusão que fizeram com as minhas coisas colocaram um saco velho que eu quase joguei fora, mas quando vi eram cartas escritas pelo meu pai para minha mãe em suas viagens a trabalho (ele viajava praticamente toda semana para fora). Cada carta mais linda que a outra, cada sentimento mais cheio de amor... Resolvi parar de ler, pois achei que era algo deles, que só dizia respeito a eles, mas agradeci a Deus por ter tido a oportunidade de sentir e ver quanto amor e amizade existia entre eles. Difícil ver algo assim hoje em dia.
Ganhei meu cantinho de volta e no apt novo tem um escritório, onde eu passo o dia inteiro jogando paciência spider ou escrevendo no computador. Estou de volta à internet. Me devolveram a parte de mim que havia sido tirada.  O futuro me entristece. Só aguardo. Tenho medo de como vou reagir e como vou sobreviver à morte de minha avó. Nossa família é ínfima, e seremos só eu, meus dois irmãos, meu marido e minha filha, minha sobrinha, e uma prima de segundo grau com seu filho e marido. Acabou. Somos só nós.
Me sinto perdida no mundo. Me sinto perdida nessa mudança. Me sinto perdida sem a minha avó.

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