Quinta feira fui me consultar com o psiquiatra que trabalhava com a mamãe, na clínica em que ela era sócia. A Sophia foi comigo. O caminho já foi um ritual de passagem, uma sucessão de memórias e sentimentos. Acabei estacionando no mesmo lugar que estacionava com a mamãe (lembrava vagamente do lugar) e não sabia o que esperar. Olhava em volta e reconhecia cada pedacinho daquele lugar que foi uma parte tão importante da minha infância. Lojas, lanchonetes, e o famoso calçadão com aquela loja de quina na esquina da rua. Andei com a Sophia sentindo aquele aperto dentro de mim e tentando explicar o que significava cada coisa e o que eu estava sentindo. Então aconteceu um lance muito estranho. Eu parei em frente ao local onde costumava ficar a clínica em que passei a maior parte da minha infância. Eu olhava para a frente e via a clínica na minha mente mas não havia mais nada ali. Havia sido demolida e estava em obras. Não havia mais nada ali, nada que era tão importante pra mim e que representava tão bem a minha mãe e o que nós tínhamos vivido juntas. Ela trabalhava, às vezes eu dava uma de secretária, lanchava nos lugares em volta, ia na lojas americanas comprar um monte de chocolate, bala, refri, coxinha de galinha, etc etc etc... Depois, passava a maior parte do tempo na sala do psiquiatra, que não trabalhava no mesmo dia que ela, e dormia no sofá, fingia que era psicanalista, fazia dever de casa, lia revistas, livros. Ele me chamava de Tatibitati.
Minha mãe morreu há 10 anos. Não ia nesse lugar desde um pouco antes dela morrer.
Cheguei lá e não reconheci a clínica, não sabia para onde ir, liguei para a secretária (que é a mesma até hoje) e ela me guiou para a clínica que eu já tinha ido milhões de vezes.
Eu simplesmente apaguei o local da minha mente.
E quando aquele psiquiatra que me chamava de Tatibitati me viu, além de não me reconhecer me tratou como uma qualquer. Sequer olhou para a minha filha ou fez questão de conhecer. Foi frio, rápido e controlado como uma caricatura de um psiquiatra, daquelas que a gente vê em filme, com óculos na ponta do nariz e fala mansa, baixa e pausada.
Depois levantou, me deu uns remédios, mandou eu voltar em 15 dias e...
apertou as minhas mãos...
o cara que me viu nascer, crescer, que me chamava de Tatibitati apertou as minhas mãos, passou por mim e saiu sem olhar para trás, sem olhar para a neta da pessoa que trabalhou com ele por mais de 20 anos e que foi sócia dele, e que frequentou a casa dele...
Eu pirei.
Eu estou pirada.
Não sei o que pensar ou o que fazer.
Pra ajudar meus amigos mais próximos e familiares não têm noção do que tá acontecendo comigo, dentro de mim, dentro da minha mente, de como eu estou completamente perdida, enlouquecida, doida.
Que bom que ainda consigo me analisar e enxergar tudo isso.
Mas até quando?
E como é que eu apago isso da minha memória? e porque ?
Às vezes a gente sorri chorando por dentro.
Às vezes a gente ganha perdendo.
Às vezes a gente vive morrendo.
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